domingo, 26 de maio de 2013

RELAÇÕES ETNICORRACIAIS EM ESPAÇO DE EDUCAÇÃO INFANTIL

Os professores, em sua maioria, não sabem como agir frente a essas situações e, muitas vezes, até as pioram (leia o depoimento na página seguinte). Os pequenos em idade pré-escolar estão em uma fase que pode ser chamada de negociação. Eles negociam a amizade, o poder e também, muitas vezes, as próprias identidades, como as de gênero e, especificamente, a etnicorracial. No entanto, em algumas situações, sobre as quais ainda não há a devida compreensão para a resolução de conflitos, eles atribuem essa negociação ao adulto mais próximo, sendo, quase sempre, o professor. Na compreensão infantil, no momento do conflito, o educador é quem pode auxiliá-la. Porém, nessa e em outras ocasiões, porque o adulto não toma uma atitude diante de uma denúncia feita pela criança?
Em primeiro lugar, é necessário destacar que o(a) professor(a) de Educação infantil faz parte de uma sociedade educada para naturalizar as desigualdades, e que pessoas diferentes, dentre as quais as negras, têm recebido um tratamento inferior. Ao se deparar com a denúncia de uma criança, ele(a) parte do suposto que, talvez, ser xingado não tenha tanta importância, já que todas as crianças brigam e se xingam. E acaba por reproduzir comportamentos e ações de discriminação que ele próprio vivenciou ao longo da vida.
Outra interpretação possível é que a maioria dos professores de Educação Infantil compreende como compromisso social da escola as situações que estejam ligadas apenas às aprendizagens de conteúdos, não considerando, portanto, que sua interferência, em uma situação de discriminação, poderia diminuir ou acabar com a dor e o sofrimento da criança discriminada e possibilitar às outras crianças o desenvolvimento de um comportamento pautado pela igualdade. Vale lembrar que o preconceito e a discriminação envolvem várias sensações, dentre elas a impotência, a solidão e a apatia diante do aprendizado.

“As crianças me ‘xingam’ de preta que não toma banho. Só porque eu sou preta, eles falam que eu não tomo banho. Ficam me xingando de preta cor-de-carvão. Ela me xingou de preta fedida. Contei para a professora e ela não fez nada.” (fala de criança de 5 anos, apresentada na pesquisa “Do silêncio do lar ao silêncio da escola”, de Eliane Cavallero, 2003)

Alerta em relação às datas comemorativas 

Muitos professores de Educação Infantil, por participarem de eventos desenvolvidos pela gestão escolar ou pelo movimento social, nesse caso, o movimento negro, julgam ter compreensão sobre a complexidade das relações etnicorraciais e que estão aptos, portanto, a desenvolverem atividades sobre o tema nas escolas. Fazem, por exemplo, o que é possível constatar em outro depoimento apresentado por Cavallero (2003):

Engraçado que sempre vem essa história de cor. E o mês de agosto é uma ótima época para se falar disso, porque a gente tem o Saci-pererê, a mula-sem-cabeça, o índio. E é a época do folclore. E é uma festa. Você aproveita uma data que é muito mágica e transforma isso. (depoimento de professora de Educação Infantil na pesquisa “Do silêncio do lar ao silêncio da escola”, de Eliane Cavallero, 2003).

Nessa situação descrita por uma professora, há algumas considerações. Não apenas educadores de Educação Infantil têm utilizado datas específicas para trabalhar as diferenças etnicorraciais, como, por exemplo, a Abolição da Escravatura, no dia 13 de maio, ou, ainda, o mês de agosto, por causa do Dia do Folclore Brasileiro. Entretanto, há necessidade de ações educativas planejadas, de intervenções diante das situações cotidianas e de conteúdo para trabalhar com a temática. Para o movimento negro, por exemplo, o dia 13 de maio não é comemorado em função, principalmente, da falácia em que está inserida a história oficial da libertação do povo negro no Brasil. Para o movimento é celebrado o dia 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra, que marca a morte do líder Zumbi dos Palmares1.
Outra questão que tem entendimento enviesado é considerar que o Dia do Folclore Brasileiro tem alguma ligação com a questão das diferenças etnicorraciais. Nesse caso, é necessário questionar: será que alguma criança – negra ou indígena – se sente identificada com qualquer um dos personagens do folclore brasileiro? A conclusão é não.
Nesse sentido, enfatizo que algumas situações e conteúdos podem levar as crianças – negras e indígenas – a situações constrangedoras, colaborando negativamente para a constituição de sua identidade. Sendo assim, a proposta é que as diferenças etnicorraciais sejam trabalhadas nas unidades de Educação Infantil com atividades e conteúdos adequados à faixa etária.

Conhecer para transformar

O que devo ou posso fazer? Essa é a pergunta mais usual formulada pelos professores em processos formativos sobre relações etnicorraciais. Entre 2008 e o primeiro semestre de 2009, realizei pesquisa de campo2 em uma unidade de Educação Infantil, na cidade de São Paulo – SP com o objetivo de verificar quais os sentidos e significados que crianças pré-escolares atribuíam à sua identidade etnicorracial. Nos primeiros contatos que tive com elas, descobri que eu sofria de um mal que assola a maioria dos adultos.
Eu não sabia escutar as crianças e as considerava ingênuas. Esses contatos foram primordiais para minha compreensão dos pequenos. Logo nas primeiras visitas, percebi que eles vêem o mundo de outro ponto de vista e que suas habilidades e sensibilidade de compreensão social, suas inteligências múltiplas e criatividade para solucionar problemas muitas vezes sem solução aos olhos adultos, eram muito coerentes.
Prontamente, esses contatos me fizeram reconsiderar algumas de minhas compreensões sobre como trabalhar as relações etnicorraciais na Educação Infantil. Antes, pensava sempre a partir da perspectiva do professor, e não havia refletido sobre a possibilidade de ouvir diretamente as crianças, escutando o que elas têm a dizer para depois trabalhar com os adultos. Assim construí um novo olhar acerca da questão a partir dos depoimentos das e com crianças. Leia o depoimento a seguir de uma professora participante de um curso de formação:
No ano passado, chegou uma estudante de pedagogia para realizar estágio no CEI. Era uma moça negra. Expliquei o funcionamento do espaço e fui apresentá-la para a professora com a qual ela ficaria durante o tempo em que permanecesse na escola. Era uma sala com crianças de 4 e 5 anos. Bati na porta e a abri, apresentei a estudante para a professora e para a turma. De repente, um menino branco, de 4 anos, disse: “Ela pode se sentar naquela mesa… porque é naquela mesa que os negros podem sentar”. Tanto a diretora, segundo ela, quanto a professora nunca haviam percebido que todas as crianças negras sentavam-se juntas, em uma mesa, em um canto da sala”.
Recentemente, quando reli esse depoimento, compreendi que a professora, ao decidir trabalhar com a temática das diferenças etnicorraciais na Educação Infantil, tem de necessariamente aprender e reaprender a escutar e prestar a atenção ações das crianças. No depoimento citado, a criança coloca com muita nitidez a maneira como ela está se apropriando dos códigos sociais, onde está em jogo a identidade etnicorracial: a sua (como um menino branco) e a dos outros (os negros). Os outros que, por uma questão de sobrevivência, criam cumplicidades e permanecem em grupos isolados. Um professor atento deve ter como objetivo verificar as negociações que as crianças estabelecem sobre, por exemplo, quem pode ou não sentar com elas, ser ou não amigo. A atenção pode ser uma ótima estratégia para compreender e intervir, buscando atividades pedagógicas para a idade dessas crianças. Essa ação certamente contribuirá para a não reprodução de novas identidades pautadas na superioridade das crianças brancas e inferioridade das negras.
Leia a seguir outro depoimento que contribuiu para a mudança na minha maneira de pensar sobre as diferenças etnicorraciais na Educação Infantil:

Havia um grupo de crianças entre 3 e 4 anos brincando no parque. Eu me aproximei para verificar o teor da brincadeira. Perguntei: “Do que vocês estão brincando?” “Casinha”, responderam. Perguntei então: “E o que é que o ‘fulaninho’ é nessa brincadeira?” “Ele é o nosso cachorro”, responderam. “E porque ele é o cachorro?”, perguntei. “Porque ele é preto”, responderam.

Ao término desse depoimento, fiquei perplexa. Esse tipo de relato é uma demonstração de que pelas falas das crianças, em suas brincadeiras, é possível perceber as negociações necessárias para a constituição de suas identidades etnicorraciais igualitárias. A partir disso, podem ser feitas novas proposições.

Trabalhar no cotidiano

Alguns estudiosos das relações etnicorraciais têm defendido a necessidade de desenvolvimento de projetos específicos para o trabalho com a temática. Nesse sentido, tendo como base as observações feitas na pesquisa que realizei, é preciso ficar atento ao ambiente escolar para identificar materiais, objetos e situações que propiciem a discriminação, neutralizando-os imediatamente.
Todos os projetos didáticos, sequências e atividades permanentes devem ser planejados de modo a contemplar as relações etnicorraciais. Ao elaborar um projeto de leitura de história de princesas, por exemplo, além da Branca de Neve ou da Cinderela, é necessário incluir histórias de princesas negras, índias. É preciso pensar além de situações esporádicas nas quais as crianças negras podem vivenciar e se sentir expostas e constrangidas, como, por exemplo, realizar atividades apenas na Semana da Consciência Negra.
Para tanto, é urgente que os educadores privilegiem a relação dialógica, em que a criança tenha voz, seja mais que ouvida, escutada. Essa mudança de postura pode facilitar a compreensão do mundo infantil e suas relações. Isso poderá garantir conteúdos significativos que resultem em intervenção dentro dos espaços infantis e no direcionamento de políticas públicas para a educação das crianças pequenas. É fundamental a reflexão por parte das equipes envolvidas sobre os papéis de cada profissional – professores e gestores – como reprodutores ou produtores de novas possibilidades para as crianças constituírem identidades positivas.
Essa reflexão se faz necessária ao se considerar a situação de privilégio da maior parte das crianças brancas, que pode ser impulsionada fundamentalmente pelos professores, contribuindo para o não reconhecimento do processo de constituição da identidade – dela e dos outros – e, consequentemente, da sociedade. Considerando que a Educação Infantil é, em muitos casos, um dos primeiros espaços de formação identitária, esse tipo de comportamento contribui para que os pequenos cristalizem papéis sociais originados em desigualdades. Portanto, o papel do docente deve ser permanentemente o de questionar a realidade social, econômica e política em que se vive.

Conversa como possibilidade

Utilizei a roda de conversas como um dos momentos de observação. Em um dos dias da semana, as crianças levavam seus brinquedos para a escola e o dia começava com uma roda de conversas sobre os objetos. Sentava-me com a professora e as crianças em uma roda para participar da atividade e para escutar o bate-papo. Todas as semanas apareciam novidades, já que muitas se preparavam para o momento de brincadeira e, por isso, levavam seus melhores brinquedos – novos ou os que elas mais gostavam.
Com o tempo, pude compreender que a roda de conversa, estimulada com objetos, suscitava outros fatores interessantes de ser observados e analisados, como, por exemplo, as diferenças de classes sociais no grupo. Isso porque havia crianças que nunca levavam brinquedos. Havia também a diferença estabelecida entre meninos e meninas. As garotas estavam sempre com suas bonecas e fogões, enquanto os garotos ficavam com seus carrinhos e monstros. Tais diferenças também se concretizavam posteriormente, no momento da brincadeira, com a separação nítida entre os grupos de meninos e meninas. A temática etnicorracial tinha palco nessa roda por vias diversas. Em um dos dias registrei a seguinte situação:
Giovana, uma menina de 5 anos, levou uma boneca. A professora pegou o brinquedo e disse: “Ela tem traços diferentes. Ela é brasileira?” Lucas e Tamires, que como as demais crianças prestavam atenção à conversa, disseram: “Ela é japonesa”. Ingrid, outra menina, disse: “eu sou chinesa, meus olhos são assim (puxando os olhos para mostrar o quanto é diferente)”. A professora perguntou se sua descendência era chinesa. Ela respondeu: “Não, sou só eu. Eu sei falar inglês”, continuou a menina. “Fala a palavra geladeira em inglês, então”, pediu a professora. Tamires afirmou que sabia falar japonês e também disse uma palavra e fez os gestos de cumprimento em japonês. Ingrid havia levado uma boneca preta. A professora fez a mesma pergunta: “Ela é brasileira? De que lugar ela é?” “Da Europa”, disse Lucas, novamente. “Ela é baiana”, disse outra criança. “Como se chama a boneca?”, perguntou a professora. “Neguinha”, respondeu a garota. “Por que ela é chamada por esse nome?”, questionou a professora. Ingrid disse: “Foi minha mãe quem deu o nome”.
O fato de a boneca ser chamada de neguinha, em princípio, não é um problema; entretanto, não se chama boneca de branquinha; elas têm nomes, sejam brancas ou negras. Neguinha poderia ser um apelido carinhoso, mais não substituiria o nome. A riqueza de elementos que os pequenos explicitaram em suas falas é extremamente significativa. Eles trazem suas percepções de mundo e das pessoas, possibilitando, para uma professora atenta, a escuta infantil e diferentes maneiras para trabalhar a temática etnicorracial. Eles evidenciam conhecimento relacionado a diferentes nações, suas respectivas línguas e seus comportamentos culturais. O nome da boneca – Neguinha – também poderia ter sido mais bem explorado pela educadora já que envolvia a família e a construção da identidade etnicorracial. Por que muitos adultos não conseguem extrair elementos para uma intervenção adequada?
A roda de conversas sobre brinquedos é um exemplo clássico de que não é preciso reinventar a roda para se trabalhar com as diferenças etnicorraciais. Pelo contrário, ela pode ser associada a outros recursos, como a utilização de livros infantis culturalmente diversificados. Nesse aspecto, enfatizo a importância de processos formativos para professores visando à ampliação do conhecimento sobre a temática etnicorracial, bem como leituras de textos disponíveis e muito divulgados em sites e publicações especializadas no assunto. Esse conjunto de ações pode contribuir para melhor compreensão do mundo que cerca os pequenos. O que pretendo com este artigo é impulsionar a formação de novos olhares sobre as diferenças etnicorraciais.

(Cristina Teodoro Trinidad, bolsista do Programa Internacional de Bolsas de Pós-graduação da Fundação Ford e doutoranda do Programa Psicologia da Educação da Pontifícia Universidade Católica, em São Paulo – SP)
1Zumbi (1655-1695), nascido em Alagoas, foi o último dos líderes do Quilombo dos Palmares, em Serra da Barriga – Alagoas.
2A pesquisa foi realizada com 33 crianças de uma escola de Educação Infantil da região Oeste de São Paulo, mas os dados ainda não foram analisados. Consideram-se neste artigo, portanto, as percepções vivenciadas pela pesquisadora no interior da unidade no decorrer da pesquisa.


Fique atento

Murais e cartazes – Fotos e imagens de crianças negras, brancas, indígenas, amarelas e famílias representadas em igual proporção.
Brinquedos – Existência de bonecas que representem diferentes raças/etnias, brinquedos de diversas culturas;
Livros e revistas – Revistas e livros com imagens, textos e contextos de várias origens, culturas, países;
Música e dança – Ouvir e aprender danças e músicas com significados rituais de acordo com cada cultura. Oferecer instrumentos musicais que produzam sons típicos de regiões diversas.

sábado, 25 de maio de 2013

A PRÁTICA DE REGISTRAR COM CRIANÇAS DE 1 A 3 ANOS


Registrar faz parte do projeto pedagógico da Grão de Chão1, escola em que trabalho. Cada grupo tem seu diário de sala e nele são registrados os acontecimentos mais significativos vivenciados pelas crianças, tais como uma brincadeira muito divertida, eventos realizados na escola, algumas atividades feitas com outros grupos, as receitas elaboradas, as curiosidades ou descobertas, os aniversários, entre outros. Há espaço também para os registros mais individuais, importantes para uma ou mais crianças, como o nascimento de um irmão, por exemplo. Sou professora de crianças de 1 a 3 anos (G1/G2), e é comum os pais lamentarem o fato de os filhos, pela oralidade pouco desenvolvida, quase não contarem em casa o que fazem na escola. Percebi que pelo diário de sala seria possível compartilhar com eles as vivências de seus filhos e do grupo a que eles pertencem, bem como favorecer a construção da identidade de cada um e a percepção do outro, alimentando o sentimento de pertencimento ao grupo.
O diário de sala é elaborado na escola e, nos fins de semana ou em feriados, é enviado à casa de uma das crianças do grupo para que os pais e elas não apenas olhem, conversem e recuperem a história contida no diário, mas registrem alguma vivência da criança com a família, para que seja compartilhada com o grupo.
Os primeiros registros                                                                                                        

A significação desse diário pelas crianças foi sendo construída à medida que foi ganhando “corpo”. Nos primeiros registros, recuperamos algumas vivências do grupo consideradas mais marcantes. Nesse momento, assumi o papel de escriba e fui trazendo os elementos mais importantes que queria deixar registrados. No entanto, as crianças pouco se envolveram com a proposta e não fizeram contribuições. Eu sabia que, naquele momento, me colocava como modelo para o grupo, ajudando-o a construir, passo a passo, uma significação desse diário. Aos poucos, os registros foram compartilha-dos, olhados e revistos, e as crianças começaram a fazer pequenos comentários, aqui e acolá, referentes à construção do relato, em nossas rodas de registro do diário de sala, cuja participação tem se intensificado a cada dia.
Pais e filhos

A circulação do diário de sala pelas casas das famílias fez com que as crianças, auxiliadas pelas imagens e tendo por leitores os pais, relembrassem e contassem algumas vivências pessoais, bem como as dos colegas do grupo e, com isso, trazendo “um pouco da escola” para dentro de casa. A participação dos pais confirmou que o diário não só proporcionou vivências agradáveis – “Foi muito legal ver o livro com ela e fazer um registro. Ela viu que uma criança carimbou as mãos com os pais e também quis carimbar as suas” –, como também possibilitou perceber o quanto ele fazia sentido para seus filhos: “Não consegui ver o livro com ele até o final. Ele queria me mostrar tudo várias vezes e não me deixava virar as páginas”. (Depoimentos de pais).

De volta à escola

Os registros feitos pelos pais foram variados e revelaram a singularidade de cada criança. Nosso diário de sala foi se constituindo nessa diversidade, tendo por eixo estrutural o desejo de dar voz à criança, para que ela pudesse falar de suas aprendizagens e compartilhar suas descobertas. Os registros foram importantes para que as crianças se lembrassem do que haviam feito no período em que o diário esteve em sua casa, fazendo com que as crianças recuperassem esses momentos e os compartilhassem oralmente com o grupo. As colaborações revelam lembranças afetivas, que tornam o momento de olhar o diário em sala, com o grupo todo, especial, carregado de sentimentos agradáveis. As crianças se veem como autoras das histórias pessoais e do grupo. Por vários meses, assim que pegava o diário, uma criança dizia “o papai, o papai”, referindo-se ao registro que havia feito com o pai. Atualmente, quando abro o livro, as crianças falam: “Essa foto é minha”, “Esse é o meu pé, né?!”, “Olha, eu tô descansando”. E a cada página virada, sempre há uma frase diferente a revelar sua construção, sua identidade e seu sentimento de pertencimento ao grupo.
Cada criança está presente, nesse diário, por meio do desenho que fez, pelas fotos ou pelos registros feitos com os pais ou comigo. Ao mesmo tempo que ele retrata percursos pessoais, revela também a constituição do grupo, na medida em que, ao vivenciarem experiências comuns e ao compartilharem suas experiências pessoais, relacionam-nas com as dos colegas.
Trabalho com a oralidade

O diário de sala proporciona ótimas rodas de conversa. O fato de fazer sentido para as crianças e de contar com recurso visual (fotos, desenhos, imagens…) para apoiar as falas, possibilita maior envolvimento delas durante a conversa. Por meio dessa rotina, as crianças tornam-se conscientes do processo da história que estão vivendo. A roda de conversa, a partir do diário de sala, é um momento valioso para se trabalhar a linguagem oral das crianças. Ela ajuda a organizar o pensamento e as falas das crianças. Desde pequenas, as crianças devem participar de situações reais de conversa. Assim, aprendem a escutar o outro, a esperar a vez de falar, a olhar seus interlocutores, assim como a usar a voz adequadamente.
Roda de conversa sobre o registro feito por uma família

Eu – Esse fim de semana a Esther levou o livro de registro para casa.
Maíra – A mamãe carimbou o meu pé.
Giuliana – A mamãe também carimbou o meu pé. Ela passou tinta e depois saiu.
Eu – Vamos ver se a mãe da Esther também carimbou o pé dela?
Esther – Não carimbou.
Eu – Foi esse o registro que você fez com a mamãe?
Esther – Eu fiz com a minha mãe.
Eu – Eu vou ler para vocês: “Esther, mamãe e papai tiveram um fim de semana muito legal.” Foi legal o seu fim de semana?
Criança – Foi muito legal!
Eu – O que é isso que você colou?
Esther – O Vila Sésamo2.
Rafael – Eu “tem” “mi” “ca”
Eu – Você tem na sua casa?
Rafael – É.
Eu – Você tem o filme ou vê na TV?
Esther – Na TV.
André – Sabia que eu vejo na minha TV?
Eu – Quem já viu o Vila Sésamo?
Maíra – Eu já vi também..
Manuela – Eu já vi.
André aponta para uma figura que estava colada na folha e pergunta para mim
– O que é isso?
Eu – Pergunta para a Esther.
André vira para Esther e pergunta – O que é isso?
Esther – É uma casinha.
Eu – Onde você encontrou essa casinha?
Esther – Na loja.
Eu – E você quis colar aqui?
Esther – É.
Eu – Deixa eu ler o que está escrito aqui: “Esse brinquedo é muito legal”. É um brinquedo de montar?
Esther – É de montar.
Eu – E foi você que montou ou você viu em uma revista?
Esther – Eu achei em uma revista.
Eu – E você tem esse brinquedo?
Esther – Tenho
Maíra – Eu tenho.
Eu – E você brinca de montar?
Esther – Eu brinco de montar.
Eu – Aqui na escola tem um brinquedo parecido. Depois vamos pegar e montar uma casa igual a essa?
André – Isso é um castelo.
Eu – Isso é um castelo ou uma casa?
Esther – Um castelo.
Giuliana – É um castelo de princesa.
Eu – Será que tem uma princesa escondida aqui dentro?
Giuliana – Tem. Eu tenho uma dessa.
[...]
Ainda na mesma roda:

Eu – Deixa eu ver o que é isso. (Ingresso do teatro da Branca de Neve). Você foi ao teatro esse fim de semana?
Nina – Eu também.
Esther – Era o teatro da Branca de Neve.
Rodrigo – Eu foi do Júlio.
Eu – No do Cocoricó
3?
Rodrigo – É, do Júlio.
Nina – Eu já vi o do Júlio.
Eu – Igual o Rodrigo?
Nina – É.
Esther – Eu vou no teatro do Cocoricó.
Eu – A Esther está dizendo que foi no teatro da Branca de Neve. Alguém já foi no teatro da Branca de Neve?
Nina – Eu fui.
Manuela – Eu fui.
Eu – “Quem tinha” no teatro? Tinha a Branca de Neve?
Esther – Tinha.
André – Tinha o desenho do Shrek.
Eu – Você assistiu o desenho do Shrek? Esse fim de semana?
André – É, eu vi na minha casa.
[...]
As crianças dessa idade têm pensamento sincrético, ou seja, “na percepção, no pensamento e na ação, a criança tende a misturar os mais diferentes elementos em uma imagem desarticulada, por força de alguma impressão ocasional” (VYGOTSKY, 2003). A afirmação do André: “Tinha o desenho do Shrek”, inicialmente parece não estabelecer relação com o que estávamos falando. No entanto, ela era pertinente porque aquele era o filme a que ele havia assistido no fim de semana. O mesmo vale para a criança que havia ido ao teatro da Branca de Neve. Cabe ao professor conferir significado às frases soltas, conectando-as com o que está sendo conversado ou registrado no livro, recuperando o fio de pensamento percorrido pela criança. O professor, ao estimular a criança a falar e a ficar atento ao que ela diz, perceberá as relações estabelecidas por ela, conferindo sentido à conversa. Ele assume o papel de mediador e de incentivador da interlocução entre as crianças.
Quando o diário de sala chegou ao fim 

Construir o diário de sala com meu grupo, ao longo do ano, fortaleceu minha crença no potencial das crianças que, mesmo muito pequenas, são capazes de falar de suas experiências e de relacioná-las com as dos colegas. Ele não só guarda a memória do grupo, como também revela sua identidade.
(Mariana Isnard Carneiro, pedagoga e professora da escola Grão de Chão, em São Paulo – SP)
1A escola Grão de Chão atende a crianças de 1 a 7 anos, no bairro da Água Branca, em São Paulo (SP).
2Programa infantil caracterizado pelo personagem Garibaldo e sua turma. É veiculado e coproduzido pela TV Cultura de São Paulo (SP) e pela produtora norte-americana Sesame Workshop.
3Série infantil brasileira produzida e exibida pela TV Cultura e pela TV Rá-Tim-Bum cujo personagem principal dos episódios é o menino Júlio.

sábado, 18 de maio de 2013

ATIVIDADES A PARTIR DA HISTÓRIA O CABELO DE LELÊ


O cabelo de Lelê
Belém, Valéria
Ed. IBEP Nacional

Sinopse:
Lelê não gosta do que vê - de onde vem tantos cachinhos? Ela vive a se perguntar. E essa resposta ela encontra  num livro, em que descobre sua história e a beleza da cultura africana.

Tem um vídeo no youtube, com a leitura do livro:




SEQUÊNCIA DE ATIVIDADES

·       *  Realizar a leitura do livro “O cabelo de Lelê” (sugestão: ler a história usando uma peruca que represente o cabelo da personagem. Antes da leitura, conversar sobre a peruca, chamar a atenção para o título da história e a ilustração da capa).
·      *   Após a leitura, em roda de conversa, perguntar às crianças: “Como é o cabelo de Lelê?”, “Por que o cabelo de Lelê é assim?”, “E o seu cabelo, como é? Por que será que seu cabelo é assim?”
·       *  Em outro dia, apresentar para as crianças um vídeo (you tube), com a história do livro e conversar sobre a história e sobre a África.
·         Procurar em revistas gravuras de pessoas que tenham o cabelo como o de Lelê e montar um painel. Conversar sobre o mesmo. (outra sugestão: procurar gravuras que representem o próprio cabelo).
·        * Inspirados nas páginas 16 e 17 do livro, representar a personagem Lelê, “construindo” seu cabelo com diferentes tipos de material, tais como: EVA, lã, macarrão parafuso, entre outros... É importante que cada criança escolha o material que irá utilizar. Expor os trabalhos realizados, conversar sobre os mesmos e fazer um fantoche da personagem para levar para casa.
·         *Apresentar o clipe musical “Tudo junto e misturado” (Aline Barros).
·     *    Confeccionar perucas com papel rococó preto e organizar um desfile/baile na escola. (outra sugestão: distribuir aos alunos as perucas existentes na escola para organizar o desfile/baile).
·       *  Realizar a leitura de alguns contos africanos e brincadeiras africanas, valorizando esta cultura.




segunda-feira, 15 de abril de 2013

IDEIAS PARA AS AULAS DE ARTES


                                      
  30 técnicas de pintura



                            
1- Pintura impressa

Como fazer: Pinte sobre uma mesa ou suporte qualquer, em seguida coloque uma folha por cima, pressione com as mãos e depois retire-a novamente. Você verá que a pintura da mesa passou para o papel de forma invertida.
                                                                                                                                 
2- Pintura com giz derretido

Como fazer:  Encostar o giz de cera ligeiramente na vela. Derretida a cera, usar o giz rapidamente sobre o papel, conseguindo-se um belo efeito em relevo.

Dica:  Esta técnica exige muito cuidado e atenção por utilizar fogo. É muito importante a  supervisão de um adulto, quando for realizada por crianças.




                                                                                                                                            

3- Pintura desbotada

Como fazer: Molhe um cotonete no álcool ou água sanitária e desenhe sobre um papel de seda.
  
Dica: Utilize  papéis com cores fortes para um melhor resultado.
Não deixe as crianças sozinhas manipulando álcool ou água sanitária.

                                                                                                                               

 4- Pintura com papel crepom

Como fazer: Corte em pedaços o rolo de papel crepom, umedeça na água e pressione na folha branca.

Dica:  Se fizer em sala de aula, deixe pouca água à disposição das crianças e escolha cores fortes, para melhor resultado.
                                                                                                                                 
5- Pintura no papel amassado

Como fazer: amasse e desamasse o papel, depois pinte por cima.
                                                                                                                               

6- Barbante com tinta



Como fazer: Mergulhe um pedaço médio de barbante na tinta guache e depois coloque na folha branca. Espere um pouquinho e tire o barbante.
                                                                                                                               

7- Pintura espelhada

Como fazer: Pinte com cola colorida ou tinta guache, dobre a folha ao meio e abra novamente. Você verá que a pintura ficará igual dos dois lados da folha.
                                                                                                                               

8- Pintura no laminado amassado

Como fazer: Amasse e desamasse o papel laminado e pinte com cola colorida por cima.

Dica: Você pode utilizar o papel laminado pintado com cola de glitter para fazer um tesouro.

                                                                                                                              

9- Pintura no jornal



Como fazer: Corte um pedaço de jornal e depois pinte por cima com caneta ou tinta guache.


                                                                                                                                         

10- Pintura com peneira

Como fazer: Coloque a peneira sobre o papel, pinte com guache por cima, depois tire a peneira e veja o resultado.

                                                                                                                             

11- Pintura esponjada

Como fazer: Recorte uma esponja em pedaços, do tamanho que desejar, umedeça na tinta guache e pressione sobre o papel. Repita a atividade até formar a pintura que deseja.

Dica: Se usar várias cores de tinta é preciso separar um pedaço de esponja para cada cor, para não misturar.

                                                                                                                            

12- Pintura com argila

Como fazer: Umedeça os dedos, passe-os na argila e desenhe com eles na folha. Repita a atividade até criar um belo desenho.

Dica: Não arranque pedaços de argila para colocar na folha, apenas passe os dedos na argila para pintar. Para um melhor resultado passe cola branca por cima, para evitar que a terra esfarele depois de secar.

                                                                                                                           

13- Pintura com papelão

Como fazer: Corte um pequeno pedaço de papelão grosso e verá que ele é formado por camadas. Na ponta do papelão, rasgue uma camada de forma que a camada ondulada fique exposta, pois é com ela que deverá pintar. A camada ondulada do papelão dá um efeito diferente na pintura.

Dica: Se você pintar fazendo ondas no papel a pintura ficará muito legal. Você pode alternar as ondas em tons de bege, azul escuro e claro para ilustrar o fundo do mar. Depois pegue a tinta verde e faça ondas verticais imitando algas marinhas, e finalize colando peixinhos. 

                                                                                                                         

14- Pintura com cotonete

Como fazer: Utilize cotonetes ao invés de pincéis. Molhe a ponta do cotonete na tinta e divirta-se.

                                                                                                                          

15- Pintura com garfo

Como fazer: Passe tinta guache em uma folha  e depois passe as pontas do garfo de leve sobre a pintura e veja como ficará.

                                                                                                                          

16 - Pintura com palito de picolé

Como fazer: Pegue uma folha colorida, cubra-a com guache de uma cor diferente  e depois faça um belo desenho com o palito de picolé. Você verá que a cor do papel aparecerá onde você passou o palito de picolé.

                                                                                                                        

17- Pintura secreta

Como fazer: Desenhe com giz de cera branco ou vela na folha branca e depois passe tinta guache com uma cor forte por cima. O desenho secreto aparecerá na pintura.

                                                                                                                       

18- Técnica do gotejamento




Como fazer: Veja passo a passo em : Fazendo arte como Pollock

                                                                                                                     
19- Pintura com fita crepe

Como fazer: Cole pedaços de fita crepe espalhados na folha, pinte com guache nos espaços em que sobraram da folha, deixe secar e depois retire as fitas do papel.

                                                                                                                  

20- Pintura com carimbos de legumes

Como fazer: Legumes como batatas, cenouras e beterrabas também podem ser instrumentos de arte. Corte-os na forma que quiser (carinha feliz, estrela, coração e etc), mergulhe na tinta e carimbe as folhas.

                                                                                                                  

21-Pintura com galhinho de árvore

Como fazer: Faça uma tinta rala, com guache e água, em seguida molhe um galho pequeno de árvore e respingue em cima da folha de papel. 

                                                                                                                  
22- Pintura com bolinha de gude



Como fazer: Pegue uma forma de bolo retangular, coloque uma folha branca dentro,  pingue tintas coloridas, coloque bolinhas de gudes por cima e mexa a forma devagar de forma que as bolinhas se movam sobre a folha e a tinta. Depois que pintar a folha, retire-a da forma, deixe-a e secar e exponha sua linda arte.

                                                                                                               

23- Pintura antiga

Como fazer: Faça um café bem forte, molhe um pedaço de algodão no café e pressione sobre a folha branca. Repita a atividade até que cubra todo o papel e depois deixe secar.
Dica: Com a pintura antiga você pode simular um pergaminho antigo ou fazer um mural histórico.

                                                                                                              

24- Pintura com cola e anilina

Como fazer: Desenhe com cola branca na folha de papel, espere secar e depois cubra de anilina. O desenho com cola se destacará na anilina e dará um efeito visual muito legal.

                                                                                                                

25- Pintura com carimbo esponjado

Como fazer: Veja passo a passo em : Técnica de pintura

                                                                                                               

26- Pintura com as mãos

Como fazer: Use as mãos como carimbos e crie diferentes formas como : animais, árvores, peixes e etc. 
Dica: Tire idéias do vídeo do Mister Make

                                                                                                                

 26- Pintura espirrada

 Como fazer:  Molhe uma bolinha de tênis na tinta e jogue em um papel grande posicionado no chão.

                                                                                                                 

 27- Pintura com papelão 2

 Como fazer: Corte pedaços de papelão, mergulhe na tinta e carimbe rapidamente na folha de papel deixando uma marca fina. Una as marcas de tinta e forme uma linda paisagem. 
No vídeo do  Mister Make você aprende a fazer uma pintura tropical com papelão.

                                                                                                                   

 28- Técnica do assopro

 Como fazer: Pingue pequenas porções de tinta sobre a folha de papel e sopre através de um canudo. Quanto mais você soprar mais espalhada ficará a tinta e mais legal ficará a sua pintura.

                                                                                                                 
 29- Pintura escorrida

 Como fazer: Utilize uma seringa para espirrar tinta sobre a folha. Você verá que obterá diferentes resultados se apertar a seringa com rapidez ou devagar.  

                                                                                                              

30- Pintura com lã de aço

Como fazer: Desenhe em uma folha de revista, recorte e coloque em cima de uma folha branca. Em seguida passe a lã de aço (popularmente conhecida como bombril) em toda a borda do desenho e você verá que a tinta da revista passará para o papel e deixará o contorno do desenho neste.