terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

PARA O PLANEJAMENTO


ESCOLA E PLANEJAMENTO


Avaliação, Decisão e Planejamento


Planejamento é uma palavra transitiva que, ao ser qualificada, ganha sentido pleno e direciona procedimentos e estratégias específicas, para que se alcancem objetivos e metas. Nesse sentido, acrescentar à palavra PLANEJAMENTO o adjetivo EDUCACIONAL implica assumir, de forma radical e abrangente, a postura de educador que pensa e age em função de uma educação traduzida em aprendizagem real e sucesso do aluno.
Por isso, a atividade de planejar as ações da escola precisa ser sempre uma resposta consequente, a favor do aluno, vinda de uma necessidade detectada. O diagnóstico dessa necessidade deve ser resultado de um processo avaliativo, em que o objeto de análise seja a instituição educacional, em suas diversas dimensões: Pedagógica, Participativa, Resultados Educacionais, Gestão de Pessoas, Serviços, Recursos e Financeira.
Planejamento e Avaliação são procedimentos indissociáveis, uma vez que toda avaliação pressupõe uma tomada de decisão planejada e intencional, na busca da melhoria do que está sendo avaliado e, por conseguinte, todo ato de planejar deve estar sustentado em dados relevantes, colhidos em processos de avaliação diagnóstica organizados para esse fim.
Uma avaliação diagnóstica bem embasada ao final do ano escolar é essencial para iniciar, com competência, um novo ano letivo. Portanto, os dados relevantes que servirão de subsídios para o planejamento de 2010 deverão ser aqueles que foram identificados na avaliação final da escola, em dezembro de 2009.
As legislações que orientam a elaboração do Calendário Escolar e os Conselhos de Classe/Série e a HTPC incluem momentos voltados a atividades de avaliação; e aqui é de suma importância garantir a realização da avaliação anual da escola. Nesse momento, a equipe que nela atuou, em 2009, deve avaliar o processo que vivenciou para dar subsídios a quem vai construir o “fazer” escolar em 2010.
Esse processo avaliativo deve se constituir não somente por meio de instrumentos que, como espelhos, reflitam a realidade momentânea da escola, mas também que, como lâmpadas, iluminem e indiquem caminhos possíveis e seguros para uma atuação competente a favor da melhoria do processo de aprendizagem do aluno.
A priorização desse momento, destinado a identificar as fragilidades e pontos de atenção que dificultam a organização da escola, bem como os pontos fortes e as potencialidades existentes, é fundamental para que o processo de avaliar/planejar se concretize de maneira consequente. É nesse momento que a escola se vê, constrói sua “identidade” e exercita sua autonomia.
A Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, ao propor um currículo oficial e definir metas para as escolas estaduais, optou por um trabalho articulado entre as unidades escolares e os órgãos regionais e centrais do sistema, visando à equidade no trabalho desenvolvido na rede, sem desconsiderar as especificidades locais. Dessa forma, caminhar juntos significa construir um espaço de autonomia compartilhada, em que todos os sujeitos desse processo tenham participação efetiva e igualitária.


Participação, Identidade e Planejamento


Pensar o Planejamento Escolar pressupõe realizar um exercício participativo e reflexivo sobre o contexto em que a escola se insere, as demandas da comunidade em que está situada e as do mundo contemporâneo. Também é preciso considerar aspectos relevantes do interior de cada escola, para que as ações a serem planejadas sejam coerentes com as necessidades identificadas.
O Estado de São Paulo consolidou, ao longo da última década, uma cultura avaliativa de larga escala que tem subsidiado não só o estabelecimento de políticas educacionais, mas também tem ajudado as escolas a refletir sobre o cumprimento da sua função social e a qualidade do ensino por elas ofertado.
Os resultados dessas avaliações externas têm demonstrado que já aconteceram avanços significativos, mas, também, que ainda há muito que se investir para a consolidação de uma educação plural e justa.
Nessa direção, a implantação de um currículo básico para toda a rede estadual – ao qual se articula a matriz de referência de avaliação do Saresp –, traduzido em situações de aprendizagem constantes dos materiais destinados a professores e alunos, busca não só minimizar os efeitos das desigualdades detectadas, mas também garantir oportunidade de trabalho com uma concepção de aprendizagem que privilegia a construção de saberes e competências baseados em conteúdos significativos e contextualizados.
O compromisso com a aprendizagem de todos os alunos só se efetiva com uma escola que aprende, que oportuniza e potencializa espaços de formação condizentes com as necessidades de todos os sujeitos aprendizes. O conceito de escola que aprende assumido aqui é o de que todos os atores do espaço escolar estão diretamente envolvidos com a construção de saberes para si e para os demais.
Nessa escola não só o aluno tem o que aprender. O professor também precisa aprender a ensinar cada um de seus alunos; o gestor, aprender a gerir essa escola, que é diferente de qualquer outra que já tenha atuado e que a cada ano traz consigo suas especificidades e demandas; os funcionários, pais e a comunidade têm de reaprender aquilo que já era sabido e feito anteriormente, ainda que com bastante competência, pois os desafios são novos a cada momento.
Os espaços de formação da escola que aprende (HTPC, Reuniões Pedagógicas, Conselhos de Classe e Série, Reuniões de Planejamento) devem garantir a problematização sobre “como aprendem os que ensinam?” com a finalidade de refletir sobre a construção dos saberes profissionais necessários aos educadores que se comprometem com a aprendizagem de todos os alunos. Só aprendem a ensinar aqueles que aprendem a aprender.
Isso posto, é possível afirmar que o ato de planejar é um exercício privilegiado de construção e consolidação de identidades. A identidade da escola que se explicita na sua Proposta Pedagógica. A da equipe gestora que se consolida na execução do planejado. A dos professores que se concretiza na efetivação do currículo e se manifesta na aprendizagem de seus alunos. A dos funcionários que, ao participar da ação de planejar, se incluem como educadores, que também o são, no papel de formar os alunos nos múltiplos espaços da escola. A da comunidade que, sendo partícipe, assume a escola como sua.
Por fim, a identidade dos alunos é construída quando se percebem sujeitos de uma escola onde todos os segmentos estão articulados com a finalidade de planejar um ensino que garanta a eles, além da formação para autonomia, um projeto de vida plena, alicerçado em conhecimentos, valores e atitudes que os identifiquem como alguém competente na construção da própria história.


Intenção, Registro e Planejamento


Muito tem se falado da importância dos registros para a organização da escola. Mesmo assim, ainda é preciso aprimorar o exercício dessa prática, uma vez que ela é fundamental para subsidiar as decisões tão necessárias na ação de planejar e executar o planejado.
Quem registra tem memória e história. A importância da historicidade para embasar o planejamento escolar vem da possibilidade de contextualizar e situar no tempo e no espaço as demandas e as potencialidades da instituição escolar.
Ler os registros já elaborados permite entender os condicionantes e as necessidades da escola. Já a elaboração de novos registros, durante o planejamento, possibilita a reflexão sobre os dados, bem como indica os caminhos a serem tomados para a superação das dificuldades detectadas. Documentam um compromisso escrito quanto às intenções. Dessa forma, o registro é o impulsionador da reflexão sobre a prática, pois possibilita a constatação da teoria na prática. Oportuniza a tematização das ações.
Por isso, os registros escolares são fundamentais como apoios no planejamento escolar porque trazem à memória os fatos acontecidos, os dados a serem considerados, permitindo que a riqueza do processo de planejar se transforme em documentos (registros) que orientam as ações a serem desencadeadas a partir do planejado.
Sem registro e a análise decorrente dele não é possível avançar para além do realizado ou, muitas vezes, sequer observar o realizado, com o risco de repetir equívocos e perder oportunidades de introduzir ações inovadoras.


domingo, 7 de fevereiro de 2010

SUGESTÕES: MATERIAIS PARA ORGANIZAR OS CANTOS NA SALA DE AULA




Sugestões de materiais



Estas são apenas sugestões de como montar jogos simbólicos com recursos que podem ser adquiridos por meio de doações. É interessante que o professor faça juntamente com as crianças uma lista do que julgam interessante para os cantos de jogo simbólico. Feita a lista, podem escrever uma carta aos pais e comunidade (médicos, cabeleireiros, feirantes...) pedindo ajuda para montagem dos kits, com materiais doados para incrementar o jogo. Para organizar a chegada dos materiais vale separar caixas de papelão ou caixotes de madeira para guardá– los de forma a facilitar a montagem dos cantos. Podemos ainda, organizá –los pelas categorias: sorveteria, supermercado, médico, kits de animais , oficinas de consertos de brinquedos, computadores, mecânica. Aproveite algumas dicas, a seguir.



Escritório
*máquina de escrever
*teclados, monitor e mouse
*lista telefônica
*telefone
*bloco para anotações
*agendas novas e usadas
*caneta / porta canetas
*máquinas de calcular
*calendário
*carimbos
*furador de papel
*maleta tipo pasta executivo
*gravatas




Oficina de Consertos
*Máquinas sem uso (computador, relógio, telefone, vídeo cassete, máquina fotográfica, impressora)
*ferramentas de plástico
*ferramentas de verdade que não ofereçam perigo como chave de fenda, panos e pincel para limpeza.
*Objetos de escritório: telefone, agenda, máquina de calcular, manuais, tabelas de preço de produto
Obs.: No caso de desmontar partes do computador, consulte sempre a equipe técnica de informática do seu município. Eles podem indicar que peças não apresentam riscos à saúde das crianças.




Médico

*embalagens de remédios vazias e bem lavadas, de mercúrio cromo e esparadrapo *vazias, de chá (camomila, erva doce ,boldo...)
*pano para compressa
*caixas de remédios com bulas
*avental branco
*sapato branco (usado)
*máscaras, toucas e luvas cirúrgicas
*estetoscópio velho
*bolsa d’água
*máscara de inalação
*ataduras
*blocos de papel c/ propaganda médica
*maleta de primeiros socorros
*chapas de raio x
*tecidos ou lençóis brancos
*colchões empilhados para servir de maca
Obs.: É importante incluir blocos e notas para marcar consultas.



Salão de beleza
*maquiagens
*embalagens vazias de shampoo e condicionador
*pentes, escovas, bobes e grampos
*presilhas, elásticos de cabelo e tiaras
*touca de banho
*espelho
*toalhas
*avental
*perucas
*secador de cabelo que não esteja mais funcionando
*creme de barbear e pincel de barba
*resto de prestobarba sem gilete
*mangueira de chuveirinho
*borrifador
*vidro de esmalte vazio
*revistas com modelos de cortes
*lista de serviços e preços
*telefone e agenda
*caderno de anotações e canetas

Feira
*caixotes de leite
*carrinho de feira
*sacolas
*bacias
*balança (pode ser feita com sucata)
*calculadora
*pincel atômico ou canetinha para marcar preços
*jornais
*avental, lenço, boné
*flores e folhas secas
*frutas e legumes de plástico ou papel machê
*roupas
*objetos
*brinquedos
*dinheiro de faz de conta, carteiras
*barbante e pregadores para prender preços dos produtos




Obs: as mercadorias listadas poderão ser aproveitadas de sucatas, embalagens, de brinquedos, ou então confeccionadas com papel machê. Uma boa opção de montagem de barraca é virar uma mesa, colocá-la sobre uma outra, utilizar os pés para esticar um barbante, e prender os preços dos produtos que ficam logo abaixo, em bacias.





Caixa de fantasias

*roupas velhas
*sapatos
*chapéus, bonés, lenços
*gravatas
*bolsas
*tecidos (tule, jersey, chita)
*cintos
*fantasias de carnaval ou teatro
*perucas
*bijuterias (armação de óculos, colar, pulseiras)
*espelho
*tecidos coloridos de diferentes tipos

Esta atividade pode ser ampliada com propostas de organização de desfiles utilizando:
roupas de adulto:
*sapato de salto alto
*vestidos
*peruca
*xale
*maquiagem
*tapete feito papel camurça ou papelão pintado (passarela)
*máquinas fotográficas
*filmadora (feita de papelão)




Cabana

Para se montar cabanas são necessários, basicamente, tecidos, barbante e alguns lugares onde seja possível amarrar um tecido: pregos ou parafusos com argolas na parede. Outra possibilidade é aproveitar os móveis da sala, como mesas viradas ao contrário com tecido em cima. Quando a sala é ampla e não se tem muitos pontos de apoio para amarrar a cabana, pode-se improvisar latas vazias de tinta com cimento e cabo de vassoura para servir de apoio para amarrar o barbante que se prende ao pano. Arames fixados de um ponto a outro da sala, presos com parafusos entre duas extremidades da parede, podem ajudar na montagem de cabanas na medida que podem ser amarradas no arame (com barbante) algumas pontas da cabana.




Casinha
*fogão e panelinhas
*livro de receita
*frutas de brinquedos
*embalagens vazias (leite, danone, sabão em pó, caixa de ovo)
*bonecas e mamadeiras
*caminhas
*roupinhas de bonecas
*panos
*panelas velhas (pequenas)
*bule e xícaras
*copos e pratos de plástico
*liquidificador
*escorredor de macarrão e de arroz
*ferro de passar roupa
*colheres e outros utensílios de pau ou alumínio
*chuveiro velho
*telefone velho
*agenda e bloco de recados
*lista telefônica
*caneta



Supermercado

*diversas embalagens de produtos vazias
*frutas de plástico
*sacolas de supermercado
*caixa registradora
*etiquetas para marcar precos dos produtos
*prateleiras improvisadas para armazenar os produtos
*placas para marcar ofertas de produtos
*etiquetas de preços
*cartazes de propaganda de produtos
*carrinhos de supermercado e cestas
*crachás
*telefone
*notas de papel e fichas (dinheiro) e carteira

:: fonte: www.formaremrede.org.br

sábado, 6 de fevereiro de 2010

LEITURA PELO PROFESSOR



Revista Avisa lá, págs. 24 a 28 ed. nº 7 – julho/2001
Reflexões do formador





LEITURA PELO PROFESSOR




Um projeto para conhecer e apreciar histórias





Com o objetivo de mudar a prática de contar histórias para as crianças, uma escola de São José dos Campos (SP) usou o tempo destinado às reuniões pedagógicas e desenvolveu um trabalho muito bem-sucedido.



"A hora da história em nossas escolas não era bem aproveitada. Contávamos histórias para preencher os buracos que havia em nosso tempo didático, mas não tínhamos objetivos específicos e clareza da importância deste trabalho como prática de leitura. Por outro lado, sabíamos que a leitura muitas vezes não era compartilhada em casa
pelos pais e familiares das crianças, o que reforçava nosso papel. Ler é direito de todos e a escola tem que fazer diferença é a que propicia às crianças o exercício desse direito. "



O saber prévio dos professores



Para iniciar o projeto fiz um levantamento das dúvidas que os professores tinham sobre ler histórias para crianças. Pude perceber que, apesar de conhecerem variados recursos para contar histórias, não faziam uso deles em sua prática.
Também não tinham interiorizado ato da leitura, dificultando o papel de bom modelo.


Por fim, não faziam uso de um ambiente propício para a leitura de histórias. Resumindo, não entendiam que a leitura precede a escrita, por isso era comum contarem histórias só para acalmar a sala, preencher o tempo vazio. Atividades, muitas vezes, deixada para o último momento, caso sobrasse tempo.
O interessante nesse tipo de levantamento é que muitas das ações que queria ajudar a transformar apareceram em forma de perguntas. Isso foi importante para tomarmos pé da realidade, permitindo-nos construir propostas com objetivos que podiam ser compartilhados.
A partir daí, elaborei um projeto para orientar meu trabalho com os professores, utilizando estratégias significativas para aproveitar bem nosso HTC2.





Projeto de formação dos professores





Conteúdo
• Leitura de histórias pelo professor



Objetivos com relação aos professores
• Que utilizem recursos variados em sua prática.
• Que interiorizem o hábito da leitura.
• Que conheçam o papel da leitura no processo de alfabetização das crianças.
• Que passem a organizar um ambiente mais propício para a roda de história.

Seqüência de propostas de trabalho



1. Fazer um levantamento de como os professores trabalham, em sala de aula, e listar suas principais dúvidas.
2. Propor aos professores que tragam para o encontro de HTC o registro de um momento em que tenham trabalhado história em sua sala. Trazer as reflexões para discutir com o grupo.
3. Combinar com os professores a filmagem dos momentos de leitura de história para análise com o grupo na reunião pedagógica.
4. Depois de analisar a prática, ler textos específicos, bem como o Referencial Curricular de Educação Infantil (MEC) para entender e justificar o trabalho com leitura.
5. Organizar momentos de leitura de textos literários para os professores.
6. Num outro encontro, depois das leituras e da análise dos vídeos, propor que os professores repensem aquelas atividades de leitura a fim de tornálas prazerosas e significativas para as crianças. Combinar com os professores uma nova filmagem das rodas de história.
7. Trazer as atividades filmadas para analisar e avaliar novamente com o grupo.
8. Voltar às perguntas iniciais para ver quais já conseguimos responder, sistematizando dessa forma os conhecimentos do grupo.
9. Levar os professores a uma livraria para que escolham livros para as crianças.





Primeira proposta de tematização da prática



Uma importante estratégia formativa utilizada por nós foi a tematização da prática: filmamos algumas rodas de história desenvolvidas pelas professoras de nosso próprio grupo para depois discutir, nas nossas reuniões, com toda a equipe.A primeira vez foi muito difícil. Como fiquei insegura! Tive muito receio de não orientar o momento com coerência, o que poderia comprometer a estratégia.
Assisti ao vídeo da professora com antecedência, discuti sobre ele com meu grupo de formação de orientadores pedagógicos e levei-o para a reunião com as professoras. O desenvolvimento das nossas reflexões se deu no coletivo o tempo todo.
Houve muito tato e respeito na hora da discussão. A primeira questão colocava o fato de a professora estar sempre sentada na cadeirinha durante a leitura, enquanto as crianças se sentavam no chão.
Algumas das professoras explicaram que isso facilitava a visualização das ilustrações.
Outras disseram nunca ter pensado a respeito: “Como pode! A gente faz as coisas e não percebe os fatos acontecendo na nossa frente!”, comentou uma delas.
Já a professora Fátima disse que se sentia incomodada com a situação das crianças estarem em nível diferente do dela. Por isso, as crianças de sua turma sentavam-se em cadeirinhas, como ela.
Como conclusão, chegamos ao consenso de que as crianças podem acompanhar a história olhando as ilustrações uma a uma, mas também é interessante mostrar as figuras só no final. Para isso é preciso combinar com as crianças e fazer valer este contrato.



O que não devemos fazer com as crianças



Dias depois, num outro H.T.C., planejei uma boa leitura para as professoras. Escolhi textos de uma antologia de Machado de Assis, partindo do pressuposto de que a leitura a ser partilhada com elas deveria atender ao princípio de apresentar algo de que eu própria gostasse muito.
A primeira crônica foi A Igreja do Diabo. Achei que ia abafar! Que engano! Foi um fiasco. Quando terminei a leitura, notei as feições das professoras. Parecia que não
haviam entendido nada! E eu, tão entretida que estava, entre as vozes diferenciadas de cada personagem e o vocabulário complexo do autor, nem percebi como estava o meu “público”. E o pior: quando me dei conta da situação, sabe o que eu fiz? Perguntei o que elas haviam entendido do texto e, em seguida, completei a história! É isso justamente o que não deve ser feito com as crianças! Foi tão inesperado que eu mesma fiquei sem jeito e caímos todas na risada, já que não dava para chorar. Que lição! Como é difícil a transposição da teoria para a prática. Posso dizer que senti na pele, pois, quando nos vemos perdidas em uma situação, a primeira coisa que fazemos é recorrer a conceitos que nos deixam mais seguras e com os pés no chão.


Agora sim, como devemos ler para as crianças?



Num outro dia, tematizamos as atividades das professoras Beth, Regina e Cláudia .Após assistirem aos vídeos, as professoras foram divididas em dois grupos com a proposta de refletirem sobre as questões. Depois cada grupo expôs suas conclusões.
Observando a roda de histórias com as crianças, pensamos em nós mesmos como leitores. Foi interessante notar que nós, adultos, muitas vezes deixamos passar despercebidas palavras desconhecidas, pois podemos entendê-las dentro de um contexto. Então, por que deveríamos explicar as palavras difíceis para as crianças, como víamos no vídeo? Se elas se interessarem vão perguntar. Não vão deixar de entender a história por causa de algumas palavras.
Quanto à postura do professor, ficou ainda mais claro o que já sabíamos: é importante que ele seja um bom modelo pois na hora de contar suas histórias as crianças reproduzem suas atitudes.
Tiramos conclusões como: “quando estivermos lendo, devemos ser fieis à escrita, caso contrário, é preferível contar, pois podemos passar uma idéia equivocada do que é ler.



"Contar é diferente de ler.”?



Pude perceber, ao final, como mexemos com tantas questões em tão pouco tempo, graças à tematização de atividades gravadas. O olhar voltado para a prática é sem dúvida a melhor estratégia para a transformação.
Combinei, por fim, a montagem de uma biblioteca circulante formada por livros trazidos por todos nós. Seriam escolhidos a dedo, ou porque gostamos muito ou porque nos marcaram em alguma época.
Quem quisesse ler um daqueles títulos poderia emprestar para levar para casa.



A escolha e a preparação da leitura



Achei que deveria repensar o repertório para aprofundar nossa discussão.A leitura dos textos do livro Bobeiras e Gostosuras da Fanny Abramovich, que se referia à importância das histórias, veio a calhar, esclarecendo muitas das dúvidas que tínhamos, como por exemplo a importância de o livro ser lido antes de apresentá-lo às crianças.
Os professores já tinham vivenciado situações desagradáveis, como começar uma leitura e perceber tarde demais que lhe faltava o final da história.
O ponto em que o texto foi bastante crítico é o que dizia respeito ao fato de o professor poder contar todo tipo de histórias para crianças menores, caindo por terra a idéia de que para elas precisamos escolher histórias curtas.
Criar uma atmosfera de envolvimento e encantamento também apareceu como um ponto fundamental para propiciar o clima a ser compartilhado entre professora e alunos.



Leitura de textos literários e técnicos



Continuando as sessões de leitura, apresentei a crônica Onde já se viu? do livro Olhos de Ver da Tatiana Belinky, onde ela retrata uma passagem sua com uma criança de rua
que entra na livraria em que ela está e lhe pede para comprar um livro. Desta vez acertei! As professoras entraram na história! Posso dizer que estou realizada com a parte de leitura em meu horário de estudo, principalmente por estar sentindo a emoção e o envolvimento das professoras.
Em contrapartida, a leitura do texto Interpretação, Intérpretes e Interpretantes, de Emília Ferreiro, foi de extrema dificuldade para o grupo todo.
Quando chegou nas terminologias que deram origem ao título, foi uma polêmica só.
Depois de muito diálogo, chegamos a um consenso: entendemos por interpretação aquilo que o sujeito faz ao ler. Quando faz para outra pessoa, como fazemos para as crianças, passa a ser interpretante. Este texto nos trouxe uma afirmação coerente e interessante, que coloca a linguagem que se fala não como uma forma deformada da escrita, mas como um dos aspectos da linguagem.
O texto de Isabel Solé A leitura na Escola, lido num outro encontro de H.T.C., foi muito agradável. Quando chegamos no ponto em que ela fala dos analfabetos funcionais, nos lembramos do texto Interpretação, Intérpretes e Interpretantes, pois foi exatamente como nos sentimos quando o lemos.
Em continuação aos textos de Isabel Solé, abordamos os tipos de textos que existem e para que serve cada um.
Não tínhamos clareza das diferenças, por isso nossas intervenções nem sempre respondiam à especificidade dos textos.Veio à baila principalmente a situação do trabalho com poemas. Nos perguntamos como podemos, por exemplo, pedir que alguém explique o que um poeta quis dizer? Poesia se aprecia ou se explica? Deu para clarear!





Sistematização de conhecimentos



Passamos por mudanças pessoais e profissionais nesse período.
Principalmente quanto à valorização dos livros e mudança da disposição dos mesmos em sala de aula, de forma a favorecer o manuseio pelas crianças.
Também decidimos incluir e valorizar a roda de história como atividade permanente porque entendemos que, se a leitura precede a escrita, esta deve ser uma prática diária, com objetivos claros e definidos dentro do planejamento do professor.
Todas essas transformações ocorreram porque o grupo estava aberto para que acontecessem, havendo um envolvimento muito grande de todos.Talvez até pelo fato do recorte ser tão fascinante.Ao final de nossas discussões pudemos retornar a nossas dúvidas iniciais.
Obtivemos um bom levantamento, que resume o que pudemos aprender sobre rodas de leitura.



Finalização do projeto
Como encerramento do nosso projeto de trabalho com histórias fomos a uma grande
livraria.A proposta era que cada professor escolhesse um livro para a escola comprar.
Foi uma vivência especial colocarmos em prática o muito do que aprendemos nesse
período, apesar de ter-se tornado torturante podermos escolher apenas um único livro.



ORIENTAÇÕES DIDÁTICAS PARA LEITURA


As crianças e os livros


Realidade e fantasia fazem parte do universo infantil, e propiciar momentos em que as crianças os vivenciem dentro da escola é papel do educador.
A criança vai saber diferenciar os dois mundos com o passar do tempo. O que não podemos é tirar a fantasia do mundo da criança, porque a realidade ela já tem.
Ao ler histórias ajudamos a ampliar o vocabulário, a imaginação, abrimos as portas do mundo e mostramos que através da leitura podemos conhecer o universo. O principal é que possamos apresentar a leitura como um prazer a ser desfrutado por todos nós.


Regularidade da leitura para crianças


A hora da história deve ser uma atividade permanente em sala de aula, visto o que podemos alcançar quando temos os objetivos claros.
A hora da história deve acontecer coletivamente ou em pequenos grupos, quando o professor for solicitado para isso.


Seleção de livros


Para analisar uma história devemos usar todo o tempo disponível, bem como abrir um espaço no H.T.C. para essa atividade. Devemos ser criteriosos na escolha dos livros para leitura, verificando o conteúdo, os valores que são passados, bem como as ilustrações que o acompanham, e principalmente gostar do que se vai ler para as crianças. Para comprar livros devemos levar em conta todos esses critérios.


Leitura pelo professor


A leitura deve ser fiel ao texto escrito, não devemos fazer simplificações ou misturar ler com contar histórias. A criança deve aprender que a escrita é permanente: toda vez que o professor ler aquele livro, o estará fazendo com as mesmas palavras, o que não acontece quando se conta uma história.
Conhecer o autor e o ilustrador do texto é muito importante e deve acontecer sempre, porque além da valorização profissional a criança passa a identificar e conhecer o estilo de determinados autores.
No que se refere a mostrar as figuras antes ou após a leitura é um contrato a ser feito com as crianças, no qual o mais importante é respeitá-las, pois, as duas maneiras atingem objetivos específicos.
Não devemos ter olhos para uma única interpretação possível de uma história, pois as crianças podem ter um olhar diferente. Este olhar não deve ser interpretado como equivocado.
As crianças devem ter a liberdade, caso não queiram ouvir a história, de desenvolver outra atividade.
A obrigatoriedade corresponde à mesma situação de ler um livro de que não se gosta.
Não precisamos explicar o significado das palavras para as crianças, a não ser que elas perguntem, pois a criança entende dentro de um contexto, e as palavras que achamos ser difíceis para elas passam a fazer parte de seu vocabulário interno.
Quando sentamos para ouvir uma história dias atrás,houve a proposta que partiu deles para que, ao invés da professora,um deles contasse a história.Achei uma proposta válida.
Quando alguma criança se prontifica a contar, tem a liberdade de fazê-lo para o grupo.
Nos momentos livres também, as crianças se reúnem em grupo de três ou quatro e uma conta a história.
Estas propostas, na minha opinião, surgiram pela maneira como venho trabalhando a hora da história, com mais freqüência e mais prazer.
Ao escolher um livro de história para contar, procuro na maioria das vezes saber o que diz o texto, no que ele contribui para as crianças. Apresento histórias na quais possam viajar na imaginação e também conhecer mais sobre algum assunto que tenha relação com seu cotidiano, sem tirar o encanto das histórias, pois a meu ver a hora da história tem que ser um momento gostoso e prazeroso.


Ficha técnica:
O projeto Leitura pelo Professor foi realizado em três escolas municipais de São José dos Campos – EMEI Profª Norma Lucia Rodrigues de Almeida, EMEI Galo Branco e NEI Freitinhas –, e dele participaram 16 professoras com apoio da equipe diretora.


A IMPORTÂNCIA DE BONS LIVROS PARA CRIANÇAS










Quem conhece pode escolher melhor
A importância de bons livros para crianças





Como levar os educadores a escolherem bons livros para suas crianças? Comecei o trabalho compartilhando com as professoras de uma instituição de educação infantil do Rio de Janeiro um
texto de que gosto muito. Arrebatadas pelo poder de Malika e outras histórias, elas iam se dando
conta da importância da diversidade e qualidade dos textos. Essa experiência contribuiu para que pudessem selecionar melhores livros para as crianças
Iniciei o encontro de formação fazendo com as professoras o que mais gosto e acho importante.
Levei para ler Eu, Malika Ofkir, prisioneira do rei, de Malika Ofkir e Michéle Fitoussi. É um livro
autobiográfico em que Malika conta sua insólita aventura de nascer e viver no Marrocos: membro da elite militar, filha adotiva do rei Mohamed V e depois prisioneira do rei Hassan 11, junto com sua mãe e cinco irmãos, por mais de vinte anos. Falei sobre o livro, minhas impressões e o forte impacto que me causou. Depois li um trecho que selecionei para a ocasião: Malika conta sobre os onze anos consecutivos em que, durante todas as noites, contou histórias a seus irmãos, sua mãe e uma empregada que os acompanhou na prisão.
Enquanto lia, via um interesse e uma emoção nos olhos e nas expressões que me deram a certeza de que a porta de entrada para a valorização do prazer de ler na formação de leitores é essa mesma: a própria leitura. No final, falamos brevemente sobre o que a leitura havia desencadeado em nós e sobre o quanto aquela referência comum, agora posta entre nós, nos ligaria sempre e poderia ser invocada a qualquer tempo em que nos reencontrássemos, porque fora compartilhada.


O segredo da formação de leitores


Terminada a leitura, chamei a atenção sobre os passos que havia seguido: a apresentação, seleção e preparação prévias do trecho lido, os motivos explicitados, a consideração do leitor, o incentivo aos comentários posteriores e o clima criado, destacando-os como intencionais, planejados, não acontecidos ao acaso. Essas são as orientações para o trabalho com leitura pelo professor. Esse o lugar e a forma da leitura na escola, especialmente na educação infantil. Intenções claras e etapas bem definidas a cumprir, num clima de respeito e interação com o texto e o leitor. O que tem que acontecer para isso? Eu, professora, também preciso achar o texto interessante ou ter um motivo relevante para trazê-lo para as crianças. Cada texto escolhido, cada leitura feita, cada sessão de comentários, cada realidade criada, convergem para a formação de leitores atentos, curiosos, interessados e interessantes. Essa é nossa meta, nosso contrato maior: capturar os leitores para o prazer e a importância de ler.
Falando em contrato, propus trabalharmos para a dinamização e o enriquecimento das atividades de leitura realizadas na instituição. Isso implicaria em ações para ampliar e diversificar o acervo de livros e ações planejadas junto às crianças com objetivos bem definidos e estratégias pensadas para tal. Nosso trabalho durante o processo de formação2 foi conhecer e criar boas atividades para formar falantes, leitores e escritores competentes.
Elas vibraram e acharam aquela tarefa muito importante e, ao menos ao ouvi-la a como enunciado, prometeram-se com ela. Gostaram da idéia de que conhecer e dominar a língua é saber usá-la, produzir e compreender textos e temas como falante, leitor ou escritor, em diferentes situações, com diversos fins e múltiplos interlocutores.
Enquanto eu falava sobre a leitura, uma das professoras disse:
- Mas também, você escolhe cada livro! – como que dizendo “assim é fácil”.
Esse segredo é exatamente o nosso trabalho – respondi, sorrindo – Escolher cada texto!
Exatamente esse foi o próximo passo para aquele dia: pensar sobre os livros a serem escolhidos para ler.


Há livros e livros: quais vão para as crianças?


Pedi às professoras que levassem para a reunião os livros que haviam lido para as crianças nas últimas duas semanas, aqueles que sempre lêem. Foi o melhor que podia ter feito. Foi uma excelente situação para podermos comentar e discutir a qualidade dos livros. Observei que todas tinham separado pilhas de livros o que demonstrou o envolvimento com a leitura e a importância de investir nessas atividades em sala de aula.


Primeiros resultados do encontro de formação
As professoras dos berçários I contaram que passaram a escolher os livros com mais cuidado.
Observaram que as crianças gostaram muito de rimas, por isso leram “Rimas Infantis", um livro que tem legendas rimadas para imagens de crianças, com figuras de bola, animais etc. Disseram que as crianças, estavam mais familiarizadas com os atos de leitura e que gostaram muito desses
momentos. Elas também se sentiram mais animadas para fazê-lo.
As professoras do berçário mostraram livros de pequenas histórias com uma série de imagens com legendas. Trata-se de um conjunto que, a rigor, não é uma história, embora sejam chamados "livros de histórias".Também separaram vários de plástico. Perguntei se os liam.
- Sim, e as crianças gostam muito, apontam as figuras, gostam muito de imagens.
É verdade. As crianças gostam muito de imagens. Então pedi que as mostrassem. Conjuntos de animais, frutas, objetos de higiene, pessoas, figuras geométricas, cada página com uma figura. Atendendo à idéia de ser "educativo", havia uma etiqueta embaixo dizendo sabonete, esponja etc. Eu também havia levado a minha pilha de livros. Tirei da minha malinha Zuza e Arquimedes da Eva Furnari. Mostrei a capa e fui folheando, pedindo que elas descrevessem o que viam. Uma arca, um homem olhando:
Como sabem que ele está olhando? Perguntei.
- Ah, o jeito, o lado para onde a cabeça está virada - alguém respondeu.
O homem próximo da arca, a arca aberta com um monstro e ele assustado ...
- Como sabem que está apavorado? O cabelo e o corpo para trás, quase levantando do chão, como que encostando em algo, os olhos esbugalhados.... –E assim fomos.
O monstro sem máscara. São duas crianças. Quem serão? Elas riem.Nova cena. Uma mulher e a arca. A arca se abre, ela se assusta, corre, as crianças riem. Nova cena. Epa! Um monstro.
- Agora vamos ver esse.
- Não, não - responderam, entendendo tudo.
- Por que? - perguntei.
- É muito sem graça - uma delas respondeu.
- E por que os lemos? - retornei.
- Porque são para crianças - respondeu-me a outra.
- São educativos - alguém completou.
- Hum ... - disse eu, continuando nossa conversa. - Então quem escreveu pensou em ensinar. O que queria ensinar? As formas geométricas, as cores, os hábitos de higiene. E como? Uma coisa por vez, tudo bem separado para a criança poder ver bem e repeti r. E é assim que as coisas se apresentam no mundo? É assim que as crianças pequenas aprendem? Vocês, todos os dias com os bebês, acham que elas olham, escutam, pensam uma coisa por vez? Claro que não, eles vêem tudo ao mesmo tempo! E assim fomos refletindo o que se pensa sobre criança, ensinar e sobre ler.
- Acham que as crianças podem entender e gostar de livros diferentes dos que eu trouxe? Então porque não lêem esse tipo de livro?
- Porque não conhecemos – disse uma professora.
Chegamos, então, a um outro ponto importante: conhecer diferentes livros. Conhecer e ter, alguém acrescentou.


Quem conhece pode escolher


Com os livros na mão, fomos ainda discutindo como poderíamos levá-los às crianças, que cuidados deveríamos ter, já que estão acostumadas a puxar, morder e amassar os de plástico. Então não é mais para ter esses livros? Não, nada disso. É preciso ter o maior número e a maior variedade possíveis.
- Mas na hora da história vou ler esse - disse Nancy, apontando para o da Eva Furnari.
- Isso! Você acabou de falar algo muito importante para a segunda parte do nosso trabalho de hoje - disse eu, pedindo a Nancy que anotasse o que havia dito por que era uma orientação didática importantíssima para o trabalho com histórias - selecionar previamente os textos.
Selecionar. Não se trata de censurar, proibir, coisas do gênero. Trata-se de escolher aqueles que serão objeto de maior atenção, de ações planejadas, seqüenciadas, intencionais, com objetivo definido. Além do mais, precisamos ter e conhecer diferentes livros para possamos promover discussões, criticar nosso acervo, como fizemos juntas. Quem conhece, escolhe. Quem não conhece é escolhido pelo livro.
Nesse tom continuamos. As professoras do maternal, que estavam trabalhando o tema dos animais, haviam levado primeiramente alguns livros sobre o assunto. Outra versão dos de plástico. Um deles apresentava uma ovelha humanizada que contava como elas nascem, crescem têm o pelo cortado e se transformam em lã. Tudo muito empobrecido. Comentei o livro apontando os mesmos elementos do livro de plástico. As mesmas idéias, as mesmas concepções, o mesmo pressuposto de que a leitura é instrumental, não tem um fim em si mesma. Para tornar isso mais evidente, eu o li com uma voz meio melosa e "educativa". Elas morreram de rir, repetindo que era muito bobo.
Para continuar, pedi a Lena, uma das professoras, que lesse um trecho do livro, Branca de Neve, em versão condensada, que havia na instituição. Algo como:
- Havia uma menina chamada Branca de Neve que tinha uma madrasta muito má que todos os dias se olhava no espelho e perguntava: espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu? - e pronto.
Li em seguida Branca de Neve e outros contos de Grimm, com seleção e adaptação de Ana Maria Machado:
- "Há muito e muito tempo, bem no meio do inverno, quando os flocos de neve caíam do céu leves como plumas, uma rainha estava sentada costurando junto a uma janela com esquadrias de ébano. Costurava distraída, olhando os flocos de neve que caíam lá fora e, por isso, espetou o dedo com a agulha e .. três gotas de sangue caíram na.neve.Aquele vermelho em cima do branco ... "
- Nossa! Que lindo! Que diferente! Olha, esse livro conta por ela se chama Branca de Neve! – disse uma pessoa do grupo.
A partir daí, o grupo fez o trabalho quase que sozinho.
Comparamos diferentes versões de Os três porquinhos e outros. Foi só encantamento. As professoras do jardim 1, 2 e 3 diziam que os seus alunos também não conheciam essas versões. Como fazer para que as apreciassem? Ler direto a versão mais longa e complexa? Contar em um dia e ler em um outro? Ler a mais simples e depois a mais complexa? Existem muitas maneiras. O importante é que as crianças têm que conhecer todos esses textos.


Combinados para garantir uma boa leitura na escola


E a biblioteca, como melhorar seu acervo? Sugeri uma campanha de livros entre os pais e amigos.
No próximo encontro, todas, levaríamos ao menos um livro como contribuição para a biblioteca.
Não importava se novo ou usado, todas nós íamos ampliar as escolhas para educadoras e crianças.
Animadas, as professoras foram listando tudo o que deveria haver na biblioteca: poesias, brincadeiras cantadas, rimas, de histórias etc.
Para terminar, exibi em vídeo cenas de crianças de 2 anos folheando livros, de um trio de crianças em que uma delas "lê" para as outras duas. Uma outra cena em que uma criança "lê", folheando as páginas delicadamente e acompanhando com o dedinho a história que conta. Elas acharam que aquilo não era possível. Se não vissem, não acreditariam. Como tornar possível? O que o professor deve fazer? Fomos discutindo e pontuando a diferença entre desenvolvimento e aprendizagem.
Aquelas crianças do vídeo aprenderam a folhear os livros, a manuseá-los cuidadosamente, a deleitar-se com seu conteúdo etc. Aprenderam porque um professor ensinou. Como se ensina? O que o professor deve considerar ao planejar o trabalho com leitura de histórias?
Vimos que ninguém sabia que tudo isso era tão importante. Agora que sabemos, o que o professor deve fazer? As professoras então foram ditando - e eu - pondo na lousa uma lista de orientações para trabalhar histórias.


Não são lindas essas professoras?


Avaliação do encontro:
O que aprenderam? A selecionar livros a ter olhar mais crítico, gosto pela leitura, a conhecer e se organizar antes, a importância da atitude do educador, sua postura, a manter o interesse e a atenção das crianças, a respeitar seus limites, a ter objetivos claros e, saber a importância de trabalhar desde sempre com os pequenos. Achei que valeu o meu dia, a minha semana, antes e depois, tudo.



Orientações didáticas para a leitura de histórias


• Conhecer o texto e prepará-lo com antecedência.
• Criar sistemática de leitura na rotina diária.
• Considerar o conhecimento prévio das crianças.
• Planejar em seqüência, em ordem crescente de desafios.
• Adequar o tempo e o tipo de leitura à condição da criança.
• Diversificar títulos e versões.
• Ampliar o repertório de histórias conhecidas pelas crianças.
• Criar ambiente agradável e aconchegante.
• Ter atitude cuidadosa de quem lê para o outro é referência como leitor.
• Explicitar suas preferências.
• Explicitar o motivo da leitura.
• Preocupar-se com a qualidade literária e não com o conteúdo moral.
• Garantir na rotina contato com livros de tipos e gêneros variados, para a formação de leitor crítico.
• Fazer seqüência de planejamento ou projetos envolvendo leitura.


PARA SABER MAIS
Eu, Malika Ofkir, prisioneira do rei. Malika Ofkir e Michele Fitoussi. Cia. das Letras.
Contos de Grimm. Vols. 1 e 2. Tradução de Maria Heloisa Penteado. Ed. Ática.
Contos de Grimm. Tradução de Tatiana Belinky. Ed. Martins Fontes.
Contos de Grimm. Tradução de Heloisa Jahn. Ed. Cia. das Letrinhas.
Livro de Histórias. Ed. Cia. das Letrinhas.

Ficha técnica:
Esta atividade faz parte do projeto de formação realizado por Virgínia Gastaldi no Centro de Educação Infantil Gera-ação Extra. Apoio: Instituto Pão de Açúcar


Avisa lá 07 - Edição – julho/2001 / REFLEXÕES DO FORMADOR


:: fonte: www.formaremrede.org.br

SUGESTÕES - OS CANTOS NA SALA DE AULA





Sugestões de cantos de atividades diversificadas





Os cantos trazem atividades diversificadas, oferecendo às crianças oportunidades de contato com diversas linguagens: simbólica, plástica, lúdica etc. Nesse capítulo você vai encontrar algumas sugestões que podem ser aproveitadas e melhoradas pela sua equipe: jogos de regras, faz-de-conta, pintura, desenho, construção de brinquedos e muito mais...





O canto do computador é apenas uma oferta entre tantas outras que deve ter, para efeito do planejamento, o mesmo peso das demais. Combinar as atividades que serão oferecidas, observar as preferências das crianças, acolher as ideias que elas trazem são importantes ações que o professor deve ter em vista ao trabalhar com essa proposta.





Canto dos jogos





Por onde começar? É preciso ter alguns tipos de jogos na sala, para que as crianças possam experimentar esta situação em sua rotina. Esses jogos devem estar adequados aos interesses e faixa etária da criança.
Na apresentação de jogos novos, o professor pode optar por explicar as regras em pequenos grupos, ou ao grupo todo, na sala de aula.





· Apresentação em pequenos grupos


Neste caso, é possível contar com a ajuda de algum adulto da escola, ou irmão mais velho de alguma criança, que conheça o jogo e possa ser convidado a ensinar ao grupo.
Assim sendo, um dos cantos de atividade estaria sendo coordenado por alguém de fora da sala, enquanto o professor ficaria com as crianças que estão utilizando o computador.

O professor pode também oferecer, no momento de pátio ou parque, a opção de se ter uma mesa na qual ele vai ensinar quem quiser. É uma forma de poder acompanhar as crianças num momento mais descontraído.




Apresentação na roda


A opção de socializar o jogo na roda é uma estratégia interessante para que o grupo possa conhecer um jogo novo e compartilhar dúvidas e questões com os colegas.
Esta situação deve ser planejada pelo professor, que pode escolher diversos caminhos de apresentação do jogo. Uma forma possível é explicar as regras do jogo, iniciando pelo “objetivo”, procurando esclarecer como se pode atingí-lo.
Outra forma interessante é partir do conhecimento que as crianças já tem de alguns jogos, perguntando ao grupo como imaginam que podem jogar, partindo da observação do material que compõe o jogo. Neste caso, pode ser que aconteça de o grupo até criar outra regra; dessa forma
podem entender que elas são criadas, de fato, e dependem de uma combinação prévia que organize e oriente a partida. Outra forma possével é jogar uma partida com um convidado que conheça o jogo e pedir que as crianças observem a jogada na roda; a partir daí, são convidadas a jogar usando as regras que os jogadores em questão utilizaram para jogar.




· Depois da apresentação


Feita a apresentação dos jogos novos da sala, as crianças precisam de tempo para poder desfrutar de diversas partidas. A criança só se apropria de uma regra de jogo quando tem a possibilidade de jogar. É desta ação que surgirá a reflexão sobre o jogo, ou seja, é da ação contínua que ela começa a criar estratégias para jogar cada vez melhor. E quando isto acontece, quando se torna boa jogadora, também é interessante que o professor perceba este movimento e a convide para socializar suas descobertas numa roda com os colegas da sala, explicitando seus conhecimentos. Portanto, a roda do jogo não deve se restringir somente a uma conversa inicial; pode haver outras situações que permitem às crianças avançarem em seus conhecimentos a respeito do jogo.



Canto do faz-de-conta



É importante lembrar que não só o faz-de-conta mas toda brincadeira, embora seja atividade livre e espontanêa da criança, não é natural: ninguém nasce sabendo brincar, aprende-se a partir do contato com a cultura. Por isso é tão importante considerar a brincadeira como algo que merece atenção, planejamento e acompanhamento por parte do professor. Vale a pena saber mais sobre como introduzir, selecionar e organizar materiais e como intervir.





· Como introduzir a brincadeira



Para introduzir o faz-de-conta, o professor precisa levantar os temas de interesse das crianças. Ao observar com cuidado o jogo de faz-de-conta, veremos que a criança está sempre organizando sua própria brincadeira. Isto não é à toa. Em geral, ela organiza sua brincadeira o mais parecido possível com o ambiente que se origina, o que lhe serve de modelo de referência. Por exemplo, quando monta um consultório de médico, o faz parecido aquele que conhece na vida real, muitas vezes o do posto de saúde, por exemplo. A forma de organizar sempre se remete a cultura de origem da criança, aquela que está empenhada em conhecer melhor. Por meio da brincadeira, ela procura entender como se dão as relações no mundo em que vive tanto na esfera da vida pública quanto privada, criando mundos e fazendo de conta que eles existem. Considerar essas observações ajuda na criação dos cantos de faz-de-conta.










· Como selecionar materiais



Os materiais na brincadeira sejam eles brinquedos ou objetos, exercem um papel importante para o desenrolar das interações e trama lúdica, por isso é interessante que o professor possa ajudar a conseguir materiais, sejam sucatas ou brinquedos que enriqueçam o jogo da criança. E também ajude a organizar materiais que possam contribuir para o enriquecimento do desenvolvimento de papéis no jogo.
Sendo assim, sugerimos a montagem de kits de jogo simbólico. Ao invés do tradicional monte de brinquedos misturados e entulhados, sugerimos separar caixas por temas de interesse (fazendinha, médico, oficina, casinha, etc) a fim de que seja mais fácil montar os cantos de jogo que se escolhe diariamente para brincar. Quanto mais diverso for o material, tambem mais possibilidade oferece para o desenrolar da brincadeira e o aprofundamento dos papéis e interações entre os participantes, e por conseguinte gera maior interesse e tempo de concentração das criancas nesta atividade.





· Como organizar materiais



Vimos, então, que a seleção de materiais é a primeira ação do professor para viabilizar os cantos . Outra importante tarefa é a organização dos mesmos, a forma como serão dispostos objetos e brinquedos para que a brincadeira aconteça da forma mais rica possível.
É preciso preparar a sala para receber as crianças, colocando a disposição delas cantos capazes de sugerir uma determinada brincadeira. Ao fazer isso, o educador organiza também configurações culturais e não apenas físicas, para que a criança possa se aprofundar nos papéis que escolhe. Assim sendo, é importante construir ambientes ricos em significados e representações culturais.


Contudo, o espaço da brincadeira não deve estar definitivamente pronto para que a criança possa interferir nele. Ao propor um jogo de papéis, mesmo aqueles de situações mais conhecidas como mercado, escritório, casinha, hospital etc., deve-se considerar e acolher as mudanças que as crianças venham a realizar. É importante não deixar nenhum espaço fixo ou que dificulte a transformação.





· Outras formas de agir do professor



É fundamental proporcionar as crianças, sempre, novos desafios. Às vezes pequenas interferências no jogo, na disposição do material e em sua organização, permitem uma nova forma de olhar para a mesma brincadeira. Assim, a tradicional brincadeira de casinha, por exemplo, ganha nova dimensão à medida que é enriquecida com novos elementos trazidos pelas crianças.
Outra ação é a observação cuidadosa do professor, um olhar interessado em saber o que as crianças gostam de brincar para ajudar a construir as novas possibilidades de jogo simbólico que vão aparecendo em um grupo. Assim, por exemplo, ao observar que as crianças brincam de carreto, transportando a geladeira e o fogãozinho da casinha em um caminhao improvisado em um banco, o professor pode, para pode incrementar este jogo, oferecer novos materiais ou mesmo perguntar o que poderia contribuir para este jogo. Numa destas conversas, é possível descobrir novas possibilidades para o jogo: barbantes para enrolar mercadorias, plástico bolha para protegê-las, caixas de diferentes tamanhos para separar e organizar os objetos da mudança e assim por diante. Quando as crianças percebem que o professor é um aliado que pode contribuir, também se sentem mais a vontade para criar e sugerir novas possibilidades de brincadeira.
Caberá ao adulto, apenas, segundo Gilles Brougere, “construir um ambiente que estimule a brincadeira em função dos resultados desejados. Não se tem certeza de que a criança vá agir, com esse material, como desejaríamos, mas aumentamos, assim, as chances de que ela o faça; num universo sem certezas, só podemos trabalhar com probabilidades. Portanto, é importante analisar seus objetivos e tentar, por isso, propor materiais que otimizem as chances de preencher tais objetivos.”


· Quando é o melhor momento para intervir


A intervenção, nunca é feita enquanto as crianças brincam mas sim em momentos anteriores ou posteriores ao faz-de-conta que é, por definição, livre.
O adulto pode alimentar essa brincadeira na medida em que cuida da:
organização de um ambiente seguro e acolhedor que sirva de referência para a criança;
disposição dos móveis, facilitando interações entre as crianças e criando um ambiente convidativo para a brincadeira;
disponibilidade de material adequado, interessante e em quantidade suficiente, aproveitando, por exemplo, objetos convencionais como telefones, teclados de computador e outros que assumem função importante na cena lúdica;

diversificação dos papéis tradicionais do faz-de-conta, inserindo novos elementos na trama simbólica.

Comprometido dessa forma com os reais interesses e necessidades das crianças diante da brincadeira, o adulto estará, na verdade, ajudando-as a inventar um mundo possível nos quais as crianças possam viver, aprender e relacionar-se com seus parceiros .



· Como avaliar a qualidade da brincadeira


O faz-de-conta ou o jogo de papéis pode revelar-se altamente significativo para a criança ou muito empobrecido. Para avaliar a qualidade da brincadeira, é preciso observar atentamente alguns critérios, segundo os quais a criança possa:


sair do espaço cotidiano para projetar-se em outro espaço, envolvendo-se na situação imaginária criada, seja ela derivada do campo real ou ficcional (ser capaz de realizar uma metacomunicação);
ampliar a possibilidade de compreensão dos diferentes papéis que desempenha;
ter no brinquedo um suporte de representações, onde encontre um universo de sentidos e não somente de ações;
ser capaz de simbolizar: criar diferentes significados para um mesmo objeto ou situação;
lidar com conhecimentos e manifestar competências que vão além de seu nível de desenvolvimento real;
elaborar conhecimentos advindos do exercício ativo de papéis sociais;
construir regras com outros jogadores para organizar as brincadeiras;
divertir-se em suas interações lúdicas e nos enredos que criam para suas brincadeiras;
aprender a incluir nas brincadeiras materiais elaborados por ela mesma, reaproveitando materiais do meio: criando cenários e buscando acessórios para incrementar suas brincadeiras, etc.;
· experimentar novas possibilidades de ação , diversificando a escolha de papéis.




Programa KidSmart - Material de apoio à formação (Parceria Pedagógica Instituto Avisa Lá)










segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

UM DECÁLOGO PARA ENSINAR A ESCREVER


UM DECÁLOGO PARA ENSINAR A ESCREVER
Auguste Pasquier e Joaquim Dolz



Como cada professor sabe e experimenta cotidianamente em sua sala de aula de língua, não é fácil ensinar a composição escrita. Produzir um texto é uma atividade extremamente complexa que exige múltiplas capacidades e que necessita de uma aprendizagem lenta e prolongada.
Por isso, às vezes, vêm o desânimo, o sentimento de estar trabalhando em vão e a impressão de que, ao final, há alunos que “sabem escrever” e outros que “não sabem” e, ainda, alguns que “nunca saberão” apesar de todos os nossos esforços.
Esse pessimismo é compreensível, mas está fora de lugar, já que existem na atualidade meios didáticos para desenvolver as capacidades de escritura dos alunos. Esses meios foram experimentados em diferentes unidades escolares, sob o controle de pesquisadores (Dolz, Rosat & Schneuwly, 1991; Dolz, 1995), com resultados esperançosos.
A capacidade de produzir um texto coerente em relação aos conteúdos e com um mínimo de coesão linguística não é um dom exclusivo de uma minoria seleta, mas uma capacidade ao alcance de todo indivíduo escolarizado, se lhe damos as condições de ensino e aprendizagem adequadas. Para isso, por outro lado, é preciso que o professorado conheça os instrumentos didáticos atualmente disponíveis e, que tenha idéias claras sobre o ensino da produção escrita, de maneira que não se perca em atividades entediantes, repetitivas, desnecessárias e, sobretudo, pouco eficazes.
Neste artigo, propomo-nos a relembrar, de maneira breve e simples, algumas das opções atuais em termos de ensino-aprendizagem da composição escrita (ver também Camps, 1994), mostrando como essas opções diferem daquelas que fundamentaram o ensino até a década de oitenta. Temos uma dupla pretensão: esclarecer as principais linhas da ação didática que defendemos e apresentar uma menção a alguns dos meios disponíveis.
Entre os muitos pontos que poderíamos tratar, elegemos dez que nos parecem essenciais, sem que este decálogo constitua uma lista exaustiva.



1. Diversidade Textual
O primeiro aspecto que cabe destacar ao se abordar o ensino da composição escrita é o da variedade de textos (Schneuwly, 1992). Este objeto de aprendizagem não é um objeto único, indiferenciado, mas uma pluralidade de gêneros textuais que apresentam cada um deles, características lingüísticas bem precisas. Devemos enfocar o ensino da produção de textos não como um procedimento único e global, válido para qualquer texto, mas como um conjunto de aprendizagens específicas de variados gêneros textuais.
Cada texto apresenta problemas de escritura distintos que exigem a adoção de estratégias de ensino diferenciadas e adaptadas a eles. E, ainda que os conhecimentos da psicologia da linguagem sobre os procedimentos de aprendizagem sejam limitados, sabemos que muitas das dificuldades dos alunos são específicas de um tipo de discurso ou de um gênero textual.
Quando um adulto se considera expert na escritura de um gênero específico – pensemos no caso de um especialista em fazer atas - isto não quer dizer que o mesmo domine a escritura de um texto narrativo, explicativo, poético ou argumentativo. Na verdade, os textos citados não apresentam as mesmas características linguísticas: os tempos verbais, por exemplo, não são os mesmos, assim como não são os mesmos os conectivos utilizados para articular as diferentes partes do texto ou as modalizações, as anáforas etc.
Se cada texto, para que seja compreendido pelo leitor, deve apresentar uma organização global, as formas de planejamento e de sequ[1]encialização (Adam, 1992) serão distintas quando se trata de narrar, de descrever, de explicar, de argumentar ou de dialogar. E devemos atribuir estas diferenças a uma particularidade da língua: a de se adaptar a diferentes situações de uso.
Assim, o aluno deve tomar consciência da diversidade textual e aprender a escrever textos não “em geral”, mas em função das situações particulares de comunicação (segundo o objetivo que se pretenda atingir: convencer, divertir, explicar; segundo seu destinatário: autoridades, colegas de classe, professores, pais, alunos de outra escola; segundo o lugar social onde o texto será publicado: revista ou jornal da escola, fichamentos para uso em aula etc.). E, para isso, terá de inspirar-se em ou ter como referência outros textos sociais em uso.


2. Aprendizagem precoce
Como dissemos no princípio, escrever textos é um processo complexo. A aprendizagem das capacidades que intervêm na atividade de escrever é lenta e longa. Por esta razão, convém começar seu ensino desde os primeiros anos da escolaridade. Entretanto, começar logo não significa exigir que os pequeninos façam mais cedo o que estava previsto até agora para o currículo dos mais velhos.
Em cada nível de ensino, as atividades devem ser adaptadas às possibilidades dos alunos. Entretanto, isto não significa que se tenha de esperar que os alunos saibam ler e escrever palavras e frases para sensibilizá-los para a escrita de textos. Desde muito cedo, graças ao desenho, ao contato frequente com os livros, à utilização de imagens e, sobretudo, à prática do “professor como escriba” (a criança diz oralmente um texto “escrito”, ditando-o a um adulto que assume a tarefa de grafar), crianças pequenas podem produzir textos, descrevendo um lugar conhecido, explicando um fenômeno conhecido, contando uma história, tentando convencer um colega, dando instruções para fabricar um brinquedo etc.
Escrevendo esses textos, as crianças pequenas constroem progressivamente a capacidade de se adaptarem às situações de comunicação (para quem estão escrevendo e por quê) e a consciência de que querem ser compreendidas: qual é o seu papel ao escrever, com que finalidade estão escrevendo e o que devem fazer para conseguir seus objetivos. Também buscam e refletem sobre os conteúdos temáticos para desenvolver seus textos. Enfim, descobrem algumas características da textualidade e discutem com seus colegas sobre o interesse de se adotar uma ou outra forma linguística, antes de ditá-la definitivamente ao adulto.
De uma exposição precoce ao processo da escrita através do “professor como escriba”. Esta sensibilização não só é possível desde a pré-escola como também é desejável e geradora de progressos importantes.


3. Aprendizagem em espiral
Numerosos métodos de ensino propuseram – e ainda propõem – abordar a produção escrita como um progresso de texto em texto .Estes métodos propõem abordar, durante o ano escolar, um tipo de discurso (a narração) ou um gênero textual (o conto) para, no ano seguinte, passarem a outro (a descrição ou a exposição) e, no próximo, a um terceiro (a argumentação). Muitos desenhos curriculares estabelecem uma tal progressão. Também na escola primária é frequente convidar os alunos a trabalhar um gênero textual (o conto de fadas) e esperar o ano seguinte para abordar outro gênero (a correspondência ou a crônica).
Muitos pesquisadores das atuais práticas de ensino da redação em países de fala francesa consideram que o “melhor caminho”, ou a tendência mais comum, consiste em começar trabalhando a narração, seguida da descrição e da correspondência, para coroar o conjunto com um trabalho sistemático sobre a dissertação no colegial.
Esta concepção da aprendizagem da escritura faz com que cada texto seja considerado, implicitamente, como um prerrequisito ou preparação para o estudo do texto seguinte: a narração é considerada como o texto-base para desenvolver a língua; a descrição de personagens, objetos e acontecimentos serve para completar a narração; narração e descrição permitem que se chegue aos textos considerados mais difíceis: a explicação e a dissertação.
A este tipo de progressão linear opõe-se a progressão em espiral.
Ao invés de seguir uma linha reta que vai de um texto a outro, propomos uma progressão em curva, distanciando-nos gradualmente do ensinado para voltarmos a abordá-los mais tarde, a partir de uma dimensão ou de uma perspectiva distinta. Dito de outro modo, a expressão aprendizagem em espiral refere-se a um ensino-aprendizagem, em todos os níveis escolares, da diversidade discursiva (narração, explicação, argumentação, descrição e diálogo). O que varia de um nível escolar a outro é, de um lado, o gênero textual (conto de fadas, relato de experiência, lenda, relato histórico, narrativa de enigma etc.) e, de outro lado, as dimensões textuais estudadas (uso dos tempos verbais; uso dos organizadores textuais; progressão anafórica; esquema dos actantes ou papel dos personagens; estrutura narrativa; pontuação etc.).
Por exemplo: o papel dos organizadores textuais (Era uma vez...; Um dia...; De repente... etc.) Será abordado progressivamente ao longo da escolaridade básica; propor-se-á uma complexificação dos personagens narrativos e da estrutura textual etc.
Mas o fundamental consiste em saber observar as capacidades iniciais dos alunos, em detectar alguns de seus problemas de escrita ligados a um determinado gênero textual, a fim de selecionar as dimensões textuais que comporão o trabalho central com a classe.



4. Começar com tarefas complexas
Os jogos de construção – com o Lego, por exemplo – foram, durante muito tempo, o modelo preferido dos métodos de ensino de redação: a reunião sucessiva de peças simples e separadas para “compor”, no final, uma peça complexa. Trata-se de um princípio de aprendizagem aditiva: a criança começa aprendendo as letras do alfabeto; depois escreve palavras soltas; depois constrói frases que são cada vez mais complexas; e, finalmente, compõe textos. Como sabemos, no âmbito do ensino de línguas, este princípio foi aplicado com insucesso.
Segundo este mesmo princípio, as atividades de estruturação gramatical eram consideradas como uma etapa intermediária imprescindível para desenvolver a expressão escrita: pensou-se que o aluno chegaria, a saber, escrever textos graças a exercícios estruturais. Apoiando-se em aquisições realizadas do domínio do vocabulário, da gramática e da conjugação verbal, o aluno construiria os instrumentos necessários às atividades de expressão escrita, realizando, por conta própria, sem nenhuma ajuda específica, a “transferência” das atividades próprias de estruturação para as atividades globais de composição escrita.
A aprendizagem não se dá de maneira tão simples como prevê o princípio aditivo. E, ao invés desse movimento que vai “do simples ao complexo”, preferimos um procedimento que coloca o aluno, desde o primeiro momento, em face a uma tarefa complexa e global, de maneira semelhante ao que acontece nas atividades autênticas de comunicação da vida social. Somente num segundo momento serão propostas atividades específicas em relação às diferentes dimensões do texto estudado: organização do conteúdo temático, uso das unidades linguísticas, coesão textual, aspectos sintáticos e lexicais etc, antes que o aluno se confronte de novo com a situação complexa da tarefa inicial.
Em resumo, em lugar de propor uma passagem das tarefas simples às tarefas complexas, defendemos um movimento que vai “do complexo ao simples para voltar, no final, novamente ao complexo”.
Não se trata de uma pequena diferença, mas sim, de duas concepções muito distintas uma da outra. Num caso, considera-se que o todo é o resultado de uma soma de partes simples e que a transferência de um tipo de atividade a outra dá-se de maneira natural, o que é um duplo erro no caso do ensino-aprendizagem de língua. No outro caso, é o todo, quer dizer, a atividade complexa e global, que determina os instrumentos específicos que o aluno, induzido pelo ensino do professor, deve construir para chegar a resolver os problemas colocados por esta atividade. Não se trata, pois, de “compor” um texto a partir de elementos simples conhecidos, mas de “produzir” um texto como resposta a uma situação de comunicação complexa, recorrendo a múltiplos instrumentos e estratégias.



5. Ensino intensivo
A organização do tempo na escola faz, em muitos casos, com que uma dificuldade de aprendizagem seja abordada de maneira segmentada e durante um período relativamente longo. Acontece, por exemplo, de passarmos vários meses estudando e analisando segmentos que constituem a frase porque temos somente uma aula por semana. Esse princípio de trabalho dominou, durante muitos anos, a organização do ensino ginasial e colegial e influenciou também o ensino primário, embora neste o mesmo professor seja responsável por um conjunto de disciplinas.
Dito de outra maneira, o ensino que o aluno recebe e, consequentemente, as aprendizagens que realiza são mais eficazes, duráveis e profundos se o trabalho se dá de maneira intensiva, concentrado num período breve, de não mais do que duas ou três semanas.
O ensino intensivo justifica-se por várias razões. Quando as atividades orientadas para um mesmo objetivo sucedem-se cotidianamente, há menos perda por esquecimento e pode-se assegurar melhor a continuidade na aprendizagem. Ao contrário, a interrupção de uma semana entre duas sessões de trabalho consagradas a uma mesma noção costuma produzir efeito contrário. E esta é a razão principal, porque toda a aprendizagem supõe, por parte do aprendiz, uma consciência clara do que faz, de por que o faz e de para onde se dirige. Esta consciência não pode ser mantida indefinidamente. Acima de uma, duas ou três semanas (conforme a idade), observamos que os alunos não só perdem o interesse, mas também já não sabem muito bem por que razões estão fazendo as atividades e os exercícios que lhes propomos. O vocabulário escolar dispõe de toda uma série de termos para designar esta atitude dos alunos: cansaço, desatenção, desinteresse etc.


6. Textos sociais
Tradicionalmente, o ensino-aprendizagem da escrita utiliza como modelos textos ad hoc, quer dizer, textos criados para cada circunstância. Os livros didáticos estão cheios destes textos, que não têm muito a ver com os textos autênticos que circulam fora da escola, produzidos estes últimos em contextos sociais reais: no trabalho, nos meios de comunicação, nos espetáculos, nas publicações de todo tipo... Os textos dos livros didáticos, frequentemente, não são mais do que simplificações adaptadas ao público escolar e merecem a etiqueta de “textos escolares” em comparação com os textos produzidos em contextos sociais precisos, que chamaremos “textos sociais”.
Se é certo que, para aprender a escrever um gênero determinado de textos, é necessário que os alunos sejam postos em contato com um corpus textual desde mesmo gênero que sirva de referência, também é verdade que, com a desculpa da complexidade dos textos sociais, se costuma oferece-lhes como modelos de textos fabricados para a ocasião ou desnaturalizados. E isto quando se trabalha a redação a partir de um corpus textual ou de um modelo de texto, pois, às vezes, pede-se ao aluno que escreva um texto sem apresentar-lhe nenhuma referência.
É importante que o aluno não imite os textos escolares, mas que produza textos com referência a situações de comunicação bem definidas, precisas, reais: uma explicação verdadeira de um fenômeno desconhecido; uma descrição verdadeira de uma catedral para um guia turístico; uma receita culinária verdadeira para que seus colegas possam fazê-la em casa.
E, para podermos ajudá-lo, devemos propor a leitura de textos produzidos em situações similares: textos explicativos publicados em enciclopédias ou livros para jovens; outras descrições de guias turísticos; livros de receitas culinárias etc.



7. A revisão como atividade de aprendizagem


Vimos, até agora, a importância que têm a definição da situação de comunicação, nas instruções (consignas) para a produção, e a presença de textos sociais que constituam uma referência para a primeira produção dos alunos, assim como para os exercícios e atividades de aprendizagem.
Mas que fazer com os problemas de escrita que observamos nas primeiras versões destes textos?
Geralmente, o professor corrige os erros de ortografia e de estilo, anotando comentários às margens da redação que nem sempre são de fácil compreensão para os alunos. Caso exijam uma releitura e uma auto - correção da primeira versão, os professores verão como a atividade de revisão é difícil para eles.
Os alunos mais jovens apresentam uma espécie de “cegueira”, como dizem os psicólogos que estudaram o fenômeno, diante de seus próprios erros. Os alunos que introduzem algumas modificações concentram-se em alguns erros superficiais como a correção de ortografia (os erros que podem enxergar!) e a substituição de algumas palavras por outras, julgadas mais precisas, tentando compreender as anotações do professor à margem da página. Sabemos como este tipo de atividade acaba por resultar ineficaz e a decepção que é para o professor a comparação das duas versões que é para o professor a comparação das duas versões do mesmo texto: os erros acrescentados são tão numerosos quanto às correções.
A revisão é uma atividade que é parte integrante da escrita. Durante a escrita da primeira versão de um texto, o autor relê constantemente o que escreve para continuar e, relendo, frequentemente transforma seu projeto inicial. A releitura, a revisão e a reescrita de um texto são atividades que também se aprendem.
Depois de um trabalho progressivo sobre as diferentes dimensões do texto que apresentam - se para os alunos como dificuldades, quando revisam o texto final, já não se trata de uma simples limpeza do texto, mas de uma profunda transformação do texto inicialmente produzido, graças aos instrumentos linguísticos elaborados durante as oficinas (sequências de atividades centradas numa dimensão textual). Nesse sentido, a revisão constitui um dos momentos fortes da aprendizagem da produção de um texto.
Muitas vezes, convém separar o momento da revisão da primeira versão do texto e o momento da reescrita da versão definitiva, para facilitar o distanciamento da versão inicial e uma liberdade de ação maior na obra final.


8. Método Indutivo: apropriação por parte do aluno
Os instrumentos linguísticos de que falamos no item precedente são trabalhados através de exercícios específicos. A realização destes exercícios deve merecer a máxima atenção por parte do professor. Não se trata, com efeito, de transmitir os conhecimentos aos alunos, por meio de cuidadosas explicações; trata-se, ao contrário, de conduzir e orientar os alunos para que descubram os novos sabores e se apropriem das habilidades indispensáveis para a realização de uma tarefa. Fala-se, nesse caso, de método indutivo, em oposição aos métodos transmissores frontais.
Não são os saberes do professor que devem passar diretamente de sua menta para a mente dos alunos.
É o ensino que deve permitir ao aluno, a partir de observações e exercícios concretos, a tomada de consciência do funcionamento linguístico. Por isso, damos grande importância à qualidade dos exercícios, à sua ordem de realização e à decomposição das dificuldades para que se dê uma verdadeira construção.
Estamos ainda longe de conseguir esta qualidade, mas, em alguns gêneros textuais, os materiais que estão sendo elaborados atualmente melhoraram sensivelmente, adaptando-se aos problemas típicos de escrita de alunos em fase de aprendizagem, e constituem um elemento que facilita a construção de capacidades comunicativas e lingüístico-discursivas.


9. Regulação externa e interna
Como diz Mas (1991), saber escrever é todo um sistema. A avaliação formativa dos textos produzidos exige que se leve em consideração a complexidade desse sistema: a diversidade textual, a pluridimensionalidade dos problemas de escrita, as operações e os processos psicolingüísticos que os alunos executam até chegarem ao produto final (Hayes & Flower, 1980; Bronckart, 1985; García-Debanc, 1986; Schneuwly. 1988).
A avaliação formativa entende-se, atualmente, como a criação de instrumentos de regulação do sistema que constitui a produção textual (Schneuwly & Brain, 1994). Dito de outra maneira, o aluno, quanto escreve um texto, encontra numerosas dificuldades que deve superar:
∙ contextualizar seu projeto de escrita em função da consigna do professor;
∙ eleger um tipo de discurso em função dos textos sociais que conhece;
∙ elaborar os conteúdos temáticos que serão desenvolvidos no texto;
∙ planejar globalmente partes do texto;
∙ articular as diferentes partes do texto;
∙ conectar as palavras e as frases;
∙ assegurar a continuidade de sentido do conjunto do texto;
∙ modalizar as asserções em função da perspectiva enunciativa adotada.
Quando falamos de regulação, referimo-nos à adoção por parte do aluno produtor de um texto de um ponto de vista crítico sobre sua própria atividade a fim de controlar o conjunto de problemas de escrita que acabamos de elencar.
A regulação começa sendo externa e social. O professor viabiliza os instrumentos didáticos, entre os quais destacaremos as famosas listas de controle. Durante a realização das atividades de leitura e dos exercícios de análise e de produção de textos, o aluno utiliza instrumentos de ordem linguística. A lista de controle elenca, em forma de notas, os aspectos linguísticos que vai descobrindo durante as atividades de aprendizagem e que podem ajudá-lo, como uma espécie de memória externa (agenda), na escrita de um novo texto. Graças à regulação externa da lista de controle, os alunos centram sua atenção em alguns problemas de escrita que desconheciam antes do ensino. Os resultados mostram não só uma melhoria na revisão e reescrita de textos (Rosat, Dolz e Schneuwly, 1991; Dolz, 1995), mas também que este instrumento de regulação interna, quando o aluno se apropria das habilidades necessárias à produção de um gênero textual e já não necessita da ajuda exterior da lista de controle.


10. Sequências Didáticas
Todos os pontos que desenvolvemos até aqui concretizam - se no que chamamos de sequência didática, quer dizer, um conjunto de oficinas destinadas a que se aprenda escrever um gênero textual que responde a uma série de critérios.
A noção de sequência didática justifica-se por duas razões. Em primeiro lugar, o termo “sequência” refere-se à disposição das oficinas de aprendizagem: a série de atividades e exercícios segue uma ordem gradual que busca resolver progressivamente as dificuldades dos alunos e que facilita a tomada de consciência das características linguísticas dos textos estudados. Em segundo lugar, a qualificação “didática” tem a virtude de evocar tanto o objetivo da sequência – aprender -, quanto a ação que o torna possível – ensinar. Entretanto, são muitos os professores que pensam que as capacidades que intervêm na produção de textos são resultado das predisposições herdadas pelos indivíduos (“dom”) e que se aprendem graças a elas e à experiência. Assim, simplesmente propor atividades de redação seria suficiente para que aqueles que receberam o dom de escrever aprendessem. A tarefa seria, de todo jeito, quase impossível para os outros.
Ao contrário, as sequências didáticas consideram que todos os alunos podem e devem aprender a escrever diferentes tipos de texto e que isso é, sim, possível graças a um ensino sistemático que lhes viabilize os instrumentos comunicativos e linguísticos.
Insiste-se, pois, na necessidade de uma organização global e progressiva do ensino e das aprendizagens. Durante um período de tempo relativamente curto e num ritmo adaptado ao ritmo de aprendizagem do aluno, trabalha-se sobre um gênero textual.
O trabalho com sequências didáticas permite ao aluno saber, desde o começo, por que e para que está trabalhando. Imaginemos o caso de uma escrita de receita culinária destinada a outro grupo de alunos com o qual se mantém uma correspondência escolar; a primeira produção permite ao professor observar o que seus alunos já sabem fazer e analisar quais são os principais problemas de escrita. Em função destes, o professor seleciona uma série de oficinas – exercícios e atividades -, organiza-as em várias sessões de trabalho e negocia com seus alunos os objetivos que quer alcançar.
Quando o especialista em didática elabora sequências didáticas, somente prepara o trabalho do professorado. Trata-se de materiais didáticos elaborados a partir dos conhecimentos atuais em linguística do discurso e em psicologia da linguagem, destinados a facilitar a tarefa do professor. A transformação destes materiais em sequências didáticas adaptadas aos problemas de escrita de um grupo de alunos constitui uma responsabilidade do professor.


PASQUIER,A.;DOLZ,J. Un decálogo para enseñar a escribir. In SEE/SP- PEC Formação Universitária: 2002. Módulo 2-Tema 4- Unidade 4.3- subunidade 4.3.A,p.879-893

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

EDUCAÇÃO INFANTIL - CONHECIMENTO MATEMÁTICO


EXPERIÊNCIAS DE APROPRIAÇÃO DO CONHECIMENTO MATEMÁTICO





MINI-GRUPO – Aprender a se deslocar ou deslocar objetos no espaço – andar, correr, arrastar ou empurrar sem esbarrar em pessoas ou objetos, deslocar-se em espaços para além da sala do grupo e explorar os diferentes caminhos para se chegar a um mesmo lugar e deslocar-se enfrentando obstáculos presentes nos trajetos: subindo, descendo, pulando, passando por cima, por baixo, rodeando, equilibrando-se -, de preferência sem a ajuda de um adulto, são aprendizagens que se ligam à organização espacial. Outras aprendizagens que podem ser estimuladas são: procurar objetos ou pessoas escondidos em diferentes lugares, manipular objetos de diferentes formatos e tamanhos e utilizar o conhecimento de suas propriedades para explorá-los com maior intencionalidade, ou manipular objetos variados de novas maneiras, empilhá-los do menor para o maior e vice e versa, e produzir novos sons, novas formas, novos usos para os mesmos.



PRIMEIRO ESTÁGIO Aos 3 anos, embora grande parte das situações oferecidas às crianças esteja inserida nas brincadeiras, podemos ter um olhar mais específico para a questão da exploração dos números. Nesse período ganham luz as situações de explorações de quantidades nas brincadeiras e práticas cotidianas. As crianças podem também explorar as notações numéricas em diferentes contextos: registro de jogos, controle de materiais da sala, quantidade de pessoas que vão merendar ou que vão a um passeio e, principalmente, enriquecer suas brincadeiras de faz-de-conta com materiais que convidem a pensar sobre os números. Além das atividades de deslocar a si ou objetos no espaço, as crianças podem procurar objetos ou pessoas escondidos em diferentes lugares, e verbalizar a posição deles em relação a: em cima, em baixo, ao lado, na frente, atrás. Elas podem ser apoiadas a comunicar suas experiências de deslocamentos para o professor ou outras crianças, o que pode ampliar-lhe a consciência de suas ações e replanejá-las.



SEGUNDO ESTÁGIO – As crianças podem aprender a explorar o espaço com maior intencionalidade. Podem participar de brincadeiras cujo desafio seja definir trajetos a partir de pontos de partida e de chegada que foram pré-determinados, reproduzir trajetos indicados pelo professor considerando alguns elementos do entorno como pontos de referência e descrever, interpretar a posição de objetos e pessoas, situações que colocam a criança a problematizar a questão do espaço. Elas podem aprender sobre o tamanho ou extensão dos objetos, ou mesmo do tempo. Podem ordenar diferentes objetos da mesma classe por critério de tamanho, identificar a passagem do tempo apoiadas no calendário e utilizando a unidade de tempo – dia, mês e ano – para marcar os acontecimentos do grupo e podem aprender a identificar notas e moedas do sistema monetário vigente nas brincadeiras de faz-de-conta. As crianças podem aprender a recitar a série oral convencional com a perspectiva de ampliá-la, a explorar a seqüência numérica considerando que é possível estender a sucessão de números tanto quanto se queira, a ter referências para consultas dos números, tais como, a fita métrica, o quadro numérico, os livros com muitas páginas para ler, e escrever números que ainda não aprenderam a escrever de memória. As crianças podem aprender a organizar materiais como recurso para realização da contagem: separar os objetos contados dos não contados, organizar espacialmente os objetos para facilitar a contagem, sincronizar gesto e o recitado da série numérica sem pular os objetos e/ou contá-los mais de uma vez, adquirindo precisão na contagem, terminar a contagem com um número, comparar e identificar a maior quantidade pela avaliação do grupo de objetos, utilizar as relações de igualdade, tanto quanto de desigualdade: mais que, menos que, maior que e menor que, utilizar diferentes estratégias para juntar, agregar avançar, retroceder, repartir e tirar: recontar a partir do um.



TERCEIRO ESTÁGIO – As expectativas de aprendizagens relacionadas ao espaço dos períodos anteriores devem permanecer e podemos somar a elas novos desafios para as crianças: aprender a representar graficamente caminhos e trajetos, a organizar objetos no espaço apoiado em critérios estabelecidos por outros, a desenhar e interpretar imagens de objetos a partir de diferentes pontos de vista, a descrever e interpretar a posição de objetos e pessoas, a identificar e explicitar algumas características de certas figuras e corpos geométricos. As crianças podem aprender a formalizar mais as medidas pelo uso de diferentes instrumentos de medição convencional e não convencional, a fim de estabelecer: distâncias, comprimento, capacidade (litro) e massa,usar notas e moedas nos contextos de brincadeiras, agora com o desafio de pagar e dar troco. Na contagem oral, além do que se espera no período anterior, as crianças podem aprender a recitar os números em diferentes intervalos: 2 em 2, 5 em 5, 10 em 10, recitar até um número estabelecido por alguém e parar ao alcançar este número, a contar a partir de um número diferente de um, a saber dizer o número que vem antes e/ ou depois de um número definido pelo professor e a utilizar o número na sua função ordinal: indicar a posição de um objeto ou pessoa dentro de uma série. Na contagem de objetos, deve-se manter as expectativas colocadas para o segundo estágio (separar os objetos contados dos não contados, sincronizar gesto e o recitado da série numérica sem pular os objetos e/ou contá-los mais de uma vez, adquirindo precisão na contagem, comparar e identificar a maior quantidade pela avaliação da coleção ou pela contagem) e a elas somar desafios voltados a comparar e identificar a maior quantidade pela avaliação da coleção ou, neste momento, pela sobrecontagem, ou seja, partir de um dos números e acrescentar a outra quantidade utilizando a contagem, utilizar resultados numéricos conhecidos e propriedades dos números e das operações. As crianças podem aprender a estabelecer critérios para comparar e ordenar escritas numéricas com diferentes quantidades de algarismos, saber que o número que vem depois na série numérica oral é maior do que os anteriores, considerar a quantidade de algarismos que compõem um número para determinar qual é o maior, utilizar os números que já conhecem para escrever outros números, apoiando-se na numeração falada e na escrita, utilizar registros de jogos como estratégia pessoal de organização de dados coletados.




ORIENTAÇÕES DIDÁTICAS


A afirmação até aqui sustentada que as crianças da educação infantil podem e devem ter acesso ao conhecimento matemático implica em se rever a forma como se faz esta aproximação. Em primeiro lugar, cabe lembrar que pensar matematicamente não é oposto a brincar. Da mesma forma, brincar sem uma intencionalidade didática do professor, necessariamente não favorece as experiências voltados ao campo da matemática. Sabemos que as crianças pequenas têm muitos interesses, no entanto, muitas vezes, a leitura que se faz é que só se interessam por aquilo que lhe era apresentado de forma lúdica e espontânea, como se a única coisa bacana para elas fosse o jogo simbólico. Sabemos que as crianças apresentam, para além do jogo simbólico, muita curiosidade, interesse e até prazer nas situações nas quais podem realizar descobertas, na possibilidade de resolver problemas do cotidiano, enfim na conquista de uma vida mais autônoma. É justamente apoiados nestes conhecimentos que afirmamos ser necessário organizaro cotidiano escolar de modo a contemplar também momentos dedicados a aproximar as crianças das experiências matemáticas.

Este documento trata de um modo de organizar o trabalho que inclui olhar para cada experiência com intencionalidade e foco, ou seja, olhar para o conhecimento matemático e planejar situações, interessantes e significativas, mas, sobretudo, que ofereçam problemas ao mesmo tempo difíceis e possíveis para as crianças. Uma maneira de trabalho que olhe para a forma própria das crianças se aproximarem de cada conteúdo relativo ao conhecimento matemático e os planeje de modo aproximá-lo delas. Este modo de organizar as situações propostas para as crianças pequenas respeita o seu fazer, considerando a brincadeira como uma forma de conhecer e se apropriar do mundo. Ao mesmo tempo, o trabalho do professor ganha intencionalidade em relação ao planejamento, às propostas feitas às crianças e às intervenções do professor.
Tomando pela perspectiva do foco, os conhecimentos adquiridos no CEI, creche ou EMEI e fora deles podem ser ampliados, revisados e reorganizados como novas questões para que, a cada tempo, a criança consiga com mais competência resolver problemas que envolvam, dentre outros, assuntos voltados à matemática.


Explorar Números



As crianças pequenas precisam da ação dos adultos para que as palavras e escritas numéricas ganhem significado. De acordo com as experiências que cada criança participa suas aprendizagens podem ser muito diferentes. É responsabilidade dos CEIs, creches e EMEIs oferecer para todas as crianças a maior quantidade de experiências envolvendo os diferentes usos dos números. A partir do 1º estágio essas experiências podem passas a ocorrer de maneira mais autônoma. Por isso, é importante que o professor proponha que as práticas que até então ele realizava sozinho (por exemplo, contar as crianças presentes em voz alta, fazer a distribuição de materiais, criar registros escritos que envolvam números para ajudar a lembrar coisas) passem a ser tarefa das crianças. Fazer com as crianças o registro dos dias no calendário, a marcação de datas significativas para o grupo, organizar brincadeiras que envolvam a seqüência numérica e muitas outras atividades, são situações que podem enriquecer o cotidiano e simultaneamente informar as crianças. Essas situações podem envolver os números em diferentes usos e funções. Assim, é possível organizar situações em que as crianças participem de experiências em que o número tenha a função de memória de quantidade, isto é, que possibilite lembrar a quantidade de objetos de uma coleção sem que ela esteja visível ou presente


Organizar situações em que o número possibilite comparar quantidades, isto é, relacionar duas
(ou mais) coleções de objetos. É possível ainda organizar situações em que os números funcionem como memória de posição, isto é, possibilite indicar uma posição dentro de uma lista ou uma série ordenada.



Explorar o Sistema Numérico Oral



Ao recitar a série numérica oral, as crianças começam a pensar sobre as regras que organizam o nosso sistema de numeração. Existe “certa lógica” em alguns erros que as crianças cometem durante sua aprendizagem, assim, quando uma criança conta vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove, vinte e dez, revela que já percebeu que há algo no sistema de numeração que se repete com regularidade.


Ao participar de situações de contagem oral organizadas pelo professor, as crianças podem ampliar a porção convencional da seqüência numérica oral que conhecem, pois é possível estendê-las tanto quanto se queira. O conhecimento da seqüência oral de números relaciona-se também a problemas referentes a leitura e comparação de escritas numéricas.


Contar Objetos



Contar objetos não é o mesmo que recitar a seqüência numérica. A contagem de objetos envolve colocar em ação um procedimento de correspondência termo a termo entre os nomes dos números e os objetos que serão contados e ainda, não contar um objeto mais de uma vez, nem deixar de contar algum.
Situações de contagem ocorrem muitas vezes no cotidiano dos CEIs, creches ou EMEIs, mas, pela ausência de uma intencionalidade no seu planejamento, elas acabam sendo realizadas pelo professor sem que a criança sequer veja. Por sua vez, aprende-se a contar, contando. Neste momento, é importante uma análise da rotina, buscando onde faz sentido as crianças usarem a contagem para que de fato atribuam sentido a este ato e busquem a cada dia aprimorá-lo. As experiências sucessivas de contagem em situações que tenham sentido para as crianças oferecem possibilidades delas avançarem.
Os números também servem para calcular. É importante que as crianças pequenas participem de diversas experiências envolvendo a resolução de problemas aditivos e subtrativos, antes de iniciar o ensino formal e sistemático das operações (o que é tarefa do ensino fundamental).
A contagem de objetos é um dos procedimentos possíveis para adicionar duas quantidades. Um dos primeiros procedimentos que as crianças utilizam é contar de um em um todos os objetos, outro procedimento que costumam utilizar é a sobrecontagem, que consiste em partir de um dos números e continuar contando, acrescentando a quantidade correspondente ao outro número. Contar pontos de dados em geral ajudam as crianças a construírem diferentes procedimentos de contagem, buscando sempre formas mais eficientes.



Ler e Escrever Números



Muitas situações de contagem exigem o registro do resultado dessa ação. É importante destacar que escrever números não significa, necessariamente, a produção da escrita convencional dos números, nem que seja necessário que as

crianças saibam contar para depois escrever os números. Há muitas situações em que registrar quantidades ganha sentido para as crianças como, por exemplo, controlar a quantidade de material coletivo, como tesouras, brinquedos de areia, peças de jogos, livros, etc.
Por outro lado, sabemos que o sistema de numeração é um produto cultural que precede às crianças no tempo. A partir das pesquisas didáticas sobre as idéias que as crianças vão construindo a respeito do sistema de numeração escrito, é possível trabalhar com ele em toda a sua complexidade, sem facilitá-lo para as crianças pequenas. Essa abordagem requer considerar que complexidade e provisoriedade são inseparáveis.
Se as crianças tiverem oportunidade de participar de experiência de uso e reflexão sobre o sistema de numeração escrito durante a educação infantil elas poderão se aproximar de algumas das características desse sistema. No entanto, a compreensão de suas propriedades se dará ao longo de vários anos de escolaridade.
As investigações didáticas nos mostram que desde muito cedo as crianças constroem critérios para comparar e escrever números de mais de um algarismo. Por isso, os CEIs, creches ou EMEIs precisam garantir a presença de portadores de números nas salas para que os professores possam organizar situações em que as crianças procurem ler e escrever números de vários algarismos e trocar idéias com os companheiros.


Espaço e Forma



A exploração do espaço, iniciada desde o berçário, nas idades mais avançadas também devem ganhar intencionalidade. Nesse sentido, o professor de CEIs, creches e EMEIs pode organizar situações em que as crianças tratem o espaço e sua representação a partir de diferentes pontos de referência, os deslocamentos possíveis, a representação de objetos, espaços e trajetos, noções de direção e posição, brincadeiras com o corpo, copiando e espelhando movimentos a partir de
um eixo. Esse tipo de proposta é fundamental para ajudar as crianças a avançar nas suas representações espaciais, nos sistemas de referencias pessoais que lhes permitem adequar seus movimentos e ações em geral e perceberem que o espaço pode ser organizado a partir de diferentes referências que vão além do limites dos seus corpos.
A partir do 1º estágio as crianças podem começar a utilizar a linguagem – gráfica e verbal – para antecipar e substituir as ações concretas. É possível propor situações

em que as crianças representem espaços de diferentes dimensões, utilizando a linguagem coloquial/matemática para representar as idéias espaciais.
A representação plana do espaço – o desenho – coloca problemas que podem constituir um campo fértil para o início na conceitualização de alguns aspectos do entorno físico. É possível organizar também situações em que as crianças possam observar as particularidades das figuras e dos corpos geométricos e que seja necessário caracterizá-los e descrevê-los numa situação de comunicação.


Medidas



As crianças pequenas convivem diariamente com situações envolvendo medidas. Cabe aos CEIs, creches e EMEIs ampliar e aprofundar esse campo de experiências, oferecendo situações que dêem sentido a essa prática. Isto significa organizar situações de uso que medir resolva efetivamente o problema proposto nas quais as crianças possam construir novos significados para a medida.
O professor pode aproveitar outros momentos da rotina daquelas unidades para colocar em discussão alguns problemas referentes às medidas. Por exemplo, num jogo de boliche em que as crianças precisem estabelecer um local comum para que todos joguem, a bola é um problema que envolve estabelecer uma distância. Também situações como a culinária e horta são especialmente ricas para as crianças utilizarem medidas em situações reais e analisarem a pertinência de usar um padrão externo ou não. É importante também propor problemas que instiguem as crianças a refletir sobre a relatividade das magnitudes – maior que, pequeno em relação a, etc.