sexta-feira, 10 de março de 2017

ÁLBUM DO BEBÊ

Creches na cidade do Recife encontraram na proposta de produção dos álbuns de bebês uma maneira de levar os educadores a atentar para as particularidades de cada criança


As fotografias e os registros de episódios marcantes da vida são elementos constitutivos da memória de cada um de nós. Por isso é costume entre muitas famílias brasileiras guardar a história de suas crianças desde cedo, em álbuns que começam às vezes antes do nascimento, quando a criança ainda está no ventre materno. Reescrevem o dia do nascimento, o surgimento do primeiro dente, os primeiros passos, as primeiras palavras e gracinhas.
Nas famílias, os álbuns servem para ajudar a rememorar, inscrever um novo membro na história do grupo, preservar por meio de imagens e às vezes palavras, momentos importantes da passagem do tempo e das marcas que as crianças vão deixando. Mas em uma instituição educativa, para além desses propósitos, o álbum do bebê pode servir a diferentes fins, entre os quais a formação dos educadores.

Como estratégia em um projeto de formação, o álbum do bebê pode ser definido como uma documentação que possibilita um novo olhar sobre a criança e que, feito de forma colaborativa entre os educadores e as famílias, leva à construção de experiências significativas para todos. As educadoras podem redescobrir o dia-a-dia e dar-lhe um novo colorido.
“Através da observação e da escuta atenta e cuidadosa das crianças, podemos encontrar uma forma de realmente enxergá-las e conhecê-las. Ao fazê-lo tornamo-nos capazes de respeitá-las pelo que elas são e pelo que elas querem dizer. Sabemos que para um observador atento as crianças dizem muito, antes mesmo de desenvolverem a fala. Já nesse estágio, a observação e a escuta são experiências recíprocas, pois ao observarmos o que as crianças aprendem, nós mesmos aprendemos”.
Desse modo, a elaboração de álbuns do bebê pode favorecer uma atenção mais individualizada, tão difícil de acontecer nos ambientes coletivos. Sua confecção valoriza as diferenças entre as crianças e abre a possibilidade de conhecer e registrar o jeito de cada uma. Isso faz com que possa se tornar única e especial, ainda que em um ambiente coletivo.
Observar para conhecer
Essas foram algumas das idéias defendidas pela formadora Denise Nalini, na proposta feita por ela aos educadores da Creche Comunitária Nossa Senhora da Boa Viagem, Recife. Como um convite para aproximar-se dos bebês, aprender a observá-los e compreendê-los, a proposta de Denise constituiu-se assim em uma estratégia para mobilizar o olhar dos educadores e provocar algumas
mudanças na creche.
Além disso, a proposta favorecia também um novo olhar para as famílias. Algumas educadoras acreditavam que o seu trabalho só era valorizado nos aspectos físicos, ao final do dia, quando entregavam as crianças para as famílias: banhadas, penteadas e bem alimentadas – conta Denise no início do projeto. Ao refletir com o grupo sobre quais eram as principais dificuldades para a realização de seu trabalho, as falas de algumas educadoras se voltavam contra as famílias, que, segundo elas, não reconheciam o que a creche fazia pela criança. Era comum a sensação de que as famílias não sabiam cuidar bem das crianças, pois não tinham uma estrutura familiar adequada e, portanto, “faltavam cuidados e afetividade”.
Essa observação apontava para uma necessidade urgente naquela instituição: reconhecer as muitas competências dos bebês e conhecer de fato as famílias, suas estruturas, relacionamentos e jeitos próprios de cuidar das crianças, para além dos julgamentos de valor. A intenção que as educadoras pudessem ter um outro olhar para as crianças e para a sua própria prática, incorporando intervenções que ampliassem o cuidado e integrassem um caráter educativo às suas ações, se encaixava perfeitamente na proposta de elaboração do Álbum do bebê – avalia a formadora.
O álbum também possibilitaria um registro, uma marca do fazer das educadoras no trabalho com as crianças, uma forma de dar visibilidade a esta construção cotidiana.
Em cada página um pedaço da história
Compartilhar o projeto com as educadoras foi uma experiência muito interessante e animadora, conta Denise. As educadoras rapidamente incorporaram o processo de produção como uma possibilidade de valorizar o que já faziam. Denise combinou com o grupo a apreciação de alguns modelos de álbum. Carmem, uma das educadoras, lembrou que tinha o álbum do seu filho e se prontificou a trazê-lo.
Nas primeiras discussões, Denise construiu com o grupo um índice para organizar o registro diário, matéria-prima do álbum. Esse índice gerou alguns pontos de observação, que guiaram as educadoras nos caminhos desse novo olhar:
  • O que se deseja conhecer melhor em cada bebê?
  • Quais são as singularidades de cada um?
  • Quem são os parceiros prediletos?
  • Que brincadeiras ele prefere?
  • O que já sabe fazer sozinho?
Com essas perguntas, conduzia-se à ação para conhecer melhor esse período da vida de cada criança, valorizando suas particularidades, distinguindo cada uma na sua singularidade, assegurando-lhe um cuidado bem diferente do tratamento indiscriminado que muitas vezes se dá no coletivo.
Juntamente com a construção de novos observáveis, Denise sugeriu leituras, sempre contextualizadas, a partir das perguntas que as educadoras passaram a se fazer:
  • Por que as crianças põem tudo na boca?
  • Por que elas reagem aos estranhos?
  • Por que choram quando o educador se afasta de seu campo de visão?
Questões como essas, quando estudadas e respondidas, podem promover uma significativa ampliação dos conhecimentos acerca do que se passa no primeiro ano de vida.
Observação e registro
Resolveu-se que o álbum deveria conter informações anteriores à entrada da criança na creche, como forma de incluir as famílias nesse processo, a fim de que o álbum também fosse significativo para elas. A creche, então, organizou momentos para a realização de entrevistas com os familiares de cada criança, a fim de saber:
[Página 1] Identidade: Qual é a razão de seu nome? Quem escolheu? Tem apelido, um tratamento carinhoso? Quem colocou?
[Página 2] Nascimento: O dia e a hora em que nasceu.
[Página 3] Pertencimento: Tem irmãos? Quem são seus pais? Quando nasceu se parecia com quem? Os educadores também pediram aos pais para ver fotos no ambiente familiar, com os parentes, amigos etc., e para que fornecessem um auxílio na compra e revelação de fotografias das crianças na própria instituição.
O álbum motivou uma atenção voltada para a construção da identidade de cada criança. Ela não era apenas mais uma entre tantas. Nos encontros das famílias com as educadoras, as ações ganharam outras dimensões. Tanto pais e familiares quanto educadoras se encantavam com o que descobriam do que as crianças levavam de saberes da creche e o que traziam de suas casas.
A participação das famílias provocou uma mudança significativa na postura dos educadores com relação aos julgamentos e ao tratamento dado a elas. A dimensão das relações familiares de cada criança, sem exceção, ganhou um outro colorido.
A história de Kely, nome dado em homenagem a uma avó querida falecida e, segundo os relatos, uma mulher muito lutadora, trouxe para a cena as relações bastante fortes de investimento naquela criança, apesar das condições de pobreza em que vivia. A vinda das madrinhas à creche, para posar para as fotos que seriam colocadas no álbum, e as diferentes maneiras como as famílias se cotizavam para pagar os filmes e as revelações aproximou os familiares da instituição, desmistificou falsas crenças e fortaleceu os vínculos entre todos os adultos que cuidavam e educavam aquelas crianças.

O dia-a-dia de um bebê
Para construir o álbum do bebê foi preciso também observar e registrar muitas cenas, o que exigiu uma atenção especial para as atividades permanentes da rotina: o momento de ouvir histórias, de alimentar-se, de desenhar, as brincadeiras, o banho de sol, a massagem, o banho etc. As ações das crianças nessas atividades deveriam ser registradas pelos educadores. As perguntas que o grupo respondia a cada etapa e outras tantas que passaram a intrigar os educadores geraram páginas temáticas do álbum do bebê, tais como:
[Página 4] Os primeiros dias na creche: como foi o processo de adaptação?
[Página 5] Hora do banho: como a criança gosta de dormir, comer e tomar banho?
[Página 6] A brincadeira: como a criança gosta de brincar e qual seu brinquedo predileto?
[Página 7] Hora do sono: como gosta de dormir e ser ninado?
[Página 8] As preferências: quais são as músicas, as comidas, e os parceiros preferidos?
[Página 9] Os movimentos: quando aprendeu a engatinhar e quando ficou em pé sozinha?
[Página 10] A interação e a comunicação: como a criança se comunicava quando entrou na creche e como se comunica agora? Como se expressa gestualmente?
[Página 11] A interação com os adultos: como se relaciona com a educadora e os demais adultos que a cercam?
Mudanças provocadas pela observação
Mas como seria possível a educadora observar com especial atenção uma criança, quando estava sozinha com a sala repleta? A constatação de problemas como esse exigiu dos educadores a reestruturação do ambiente e a reorganização do atendimento às crianças no cotidiano da instituição.
Assim, a cada reunião a coordenadora e as educadoras discutiam as atividades que haviam sido realizadas e o planejamento das próximas. O planejamento das atividades envolvia desde a organização da sala até o estudo das intervenções e do registro. Os diários e os relatos das educadoras, que costumavam ser mais superficiais e genéricos, passaram a trazer notícias sobre as crianças e as impressões das educadoras, como vemos no exemplo a seguir:
As meninas gostaram das fotos que viram, e Luciana falou que Matheus estava mostrando a pintura dele na hora da foto. Carmem disse que na hora de tirar a foto algumas crianças estavam assustadas, então refletimos e combinamos que na próxima vez mostraremos a máquina e conversaremos com as crianças sobre o que vamos fazer. Luciana comentou que as crianças estavam mais falantes e mais seguras em seus movimentos. Nos relatou a surpresa que foi para a agente de saúde ver as crianças subir e descer as escadas sozinhas e como elas falavam.
Ao longo das semanas as atividades foram se diversificando e, ao mesmo tempo, assumindo uma permanência no cotidiano do berçário. O repertório centrado na rotina repetitiva e mecânica de higiene e cuidados básicos deu lugar a atividades mais significativas para os pequenos, tais como a caixa de imagens – caixas de papelão coladas com imagens visualmente interessantes para essa faixa etária, propícias para apreciação ou conversa –, pintura, momentos para desenhar, brincar com massinha, ouvir música, escutar história e mexer nos livros.
Pode-se avaliar que essa proposta colaborou para a construção de competências pelo educador no trabalho com as crianças pequenas. Ao conhecer melhor o outro e seus “saberes“ ele pode pensar sobre quais as melhores situações que farão com que cada criança avance em sua aprendizagem.
Mas o que, de fato, deu sentido a esse projeto, muito mais do que a materialização e a visibilidade de tantos fazeres, foi o investimento no bebê, a busca de um olhar para uma pessoa que começa sua trajetória no mundo e que deve ser acolhida, compreendida e atendida em seu desejo de ser cuidada, de sentir a segurança do outro e descobrir os encantos do mundo.
(Cisele Ortiz e Denise Nalini, Formadoras do Instituto Avisa Lá)

Ficha Técnica

Iniciativa: Instituto C&A
Responsabilidade técnica: Instituto Avisa Lá, Centro de Cultura Luiz Freire – Tel.: (81) 3301-5250 e Centro Social da Associação Cristã Feminina da Torre e Creche Comunitária Nossa Senhora da Boa Viagem
Coordenadoras Pedagógicas: Carla Cabral Barroka e Rosângela Vieira da Cunha.
Educadoras: Luciana Alves Barbosa e Carmem Célia P. Prazeres.

Para Saber Mais

  • Álbum do Bebê Maluquinho.  Ziraldo.  Editora L&pm. Tel.: (51) 3225-5777. Este álbum colorido é uma nova versão do Menino Maluquinho, o Bebê Maluquinho. Ideal para guardar as primeiras fotos dos bebês.
  • Um Menino de Olho no Mundo. Marc Simont. Editora José Olympio. Tel.: (21) 2585-2060. O texto e os desenhos de Marc Simont mostram o mundo tal como o bebê vê: com figuras gigantescas, pequenos barulhos tornam-se ensurdecedores. Ler este livro é ter uma visão dos sentimentos e fantasias de uma criança.
  • Bambini: A Abordagem Italiana à Educação Infantil. Lella Gandini e Carolyn Edwards. Editora Artmed. Tel.: 0800 703 3444. Embora a experiência italiana não possa simplesmente ser transplantada para os outros países, esta obra permite aprofundarmos o entendimento do que desejamos para nossos programas educacionais para a infância e propõe estratégias para fazer as transformações necessárias.
  • As Necessidades Essenciais das Crianças – o que toda criança precisa para crescer, aprender e se desenvolver. Stanley Greenspan e T. Berry Brazelton. Editora Artmed. Tel.: 0800 703 3444. O autor, neste livro, discute as necessidades de relacionamentos sustentadores contínuos, crenças da nossa sociedade. Detalha mês a mês as necessidades das crianças e os ganhos cognitivos e emocionais quando atendidas e as perdas comprometedoras quando negligenciadas. Em todos os capítulos, há uma discussão de diferentes situações vividas pelas crianças pequenas, primeiros relacionamentos, vigília do bebê, interações emocionais, divórcio e custódia, creche, guarda provisória, mães na prisão, orfanatos.
* FONTE: http://avisala.org.br/index.php/assunto/jeitos-de-cuidar/album-do-bebe/

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