quarta-feira, 5 de junho de 2013

SITUAÇÕES DE LEITURA NA ALFABETIZAÇÃO INICIAL: A CONTINUIDADE NA DIVERSIDADE

por: Mirta Luisa Castedo

Pensar nas situações de leitura para a alfabetização inicial implica pensar em situações não totalmente diferentes daquelas propostas para outras fases da escolaridade. Assim, em primeiro lugar, tentarei caracterizar tais situações no contexto escolar. Depois, abordarei mais pontualmente a idéia da necessidade de propor a diversidade de situações tanto no nível inicial como durante toda a educação básica. As situações para a alfabetização inicial não são diferentes daquelas desenvolvidas nas séries mais avançadas e é necessário que se mantenham em processo de continuidade.
Na segunda parte, sob o princípio de que toda situação didática de leitura procura ajudar a coordenar aquilo que o leitoraluno já sabe com a informação nova apresentada pelo texto e seu contexto, ressaltarei e exemplificarei quais as condições específicas que possui uma situação de leitura quando se trabalha no momento inicial da alfabetização.

Diversidade de situações
Durante toda a escolaridade, tanto no nível inicial como na educação básica, ensinar a ler significa muitas coisas:
• É propor situações que faça sentido que um adulto leitor leia para as crianças e é, também, investir mais naquelas em que as crianças tenham de ler ou interpretar por si mesmas.
• É planejar as situações nas quais essas atividades sejam "inevitáveis" mas, também, é decidir como utilizar as situações imprevistas nas quais a leitura apareça como sendo pertinente.
• É desenvolver situações nas quais ler tenha sentido (dentre outras coisas) porque estamos buscando um dado preciso, estudando um tema desconhecido, acompanhando as instruções para fazer ou consertar um aparelho, ou porque nos emociona, alegra-nos ou nos surpreende a maneira que o autor "diz" tal coisa...
• É mergulhar no mundo da ficção, da poesia, do conto e do romance; é desvendar as enciclopédias, os dicionários e todo tipo de texto temático; é interpretar os complexos jornais e até os guias de televisão, o humor gráfico ou os cartazes publicitários...
• É, às vezes, ler ou fazer ler bem rápido sem prestar atenção na precisão; outras, é se deter no mínimo detalhe; muitas vezes, é pular e reler somente certas partes ou, ao contrário, é ler com paciência toda a extensão de um texto longo.
• É, como se a diversidade até aqui enunciada não fosse suficiente, ler é, além de tudo isso, não só ler. É pensar, falar, sentir e imaginar sobre aquilo que se lê em situações como recomendar ou pedir conselhos sobre leituras, vincular algumas leituras com outras, discutir sobre o que foi lido, coincidir, confrontar, resumir, citar, parafrasear...
Felizmente, em nossa cultura, ler é uma prática diversificada: em gêneros e formatos discursivos, em suportes, em posições enunciativas, em propósitos e em modalidades de leitura. Se ensinar a ler é possibilitar que nossas crianças possam navegar com prazer e adequação nessa prática cultural, a leitura na escola jamais poderá ser "a" mas "as".
Diversidade, sem dúvida, dificilmente reconhecida quando se transforma em mecanismo que deve ser adquirido instrumentalmente no início da escolaridade, para depois dar lugar a exercícios mais ou menos estereotipados de uma aquisição que se supõe finalizada. Ainda bem que faz muito tempo que essa prática escolar deformadora está sendo revisada tanto nas salas de aula pelos professores como por escritores profissionais e pesquisadores de diferentes procedências (psico e sociolinguistas, linguistas, críticos de literatura, psicólogos e didatas). Como resultado desse movimento, algumas certezas estão surgindo de maneira convincente: não é possível ensinar a ler com um único texto, não é viável pretender controlar todo o processo de interpretação de um texto (muito menos medi-lo), não é desejável impor uma única interpretação de um texto...Em suma: quando o que se pretende é formar leitores críticos, competentes e felizes não é didaticamente adequado pretender homogeneizar leitores nem leituras.
Além desse princípio básico de diversidade, outros princípios didáticos guiam os projetos e as situações de leitura e de produção de textos. É necessário:
1) Propor problemas para as crianças para cuja solução não tenham todos os conhecimentos nem todas as estratégias para poder resolvê-los totalmente. Somente dessa maneira é que sua resolução gera a necessidade de coordenar ou dar novo significado aos conhecimentos anteriores, construir novos conhecimentos e desenvolver estratégias.
2) Organizar projetos e situações nos quais a leitura apareça contextualizada em alguma prática existente em nossa cultura.
3) Dar oportunidades para se aproximarem e transformarem interpretações diversas de um mesmo texto, retomando-as a partir das interpretações de outros, de outras leituras, outras experiências que contradigam ou enriqueçam suas interpretações iniciais.
4) Gerar situações nas quais seja necessário que as crianças explicitem suas interpretações, confrontem-nas e elaborem outras cada vez mais compartilhadas.
Sob esses princípios, a professora ou outro adulto leitor lê para as crianças ou as crianças são convidadas a ler por si mesmas com modalidades diversas, diferentes textos, diferentes propósitos...Lê-se no contexto de selecionar anedotas, poemas ou adivinhas preferidas para uma antologia com destinatário escolhido por todo o grupo. Relê-se para inserir ilustrações da maneira mais adequada em textos que não as possui, lê-se para escolher um conto que será gravado para dar de presente para as crianças da pré-escola e também, muitas vezes, lê-se para ensaiar a melhor maneira de oralizá-lo na gravação. Obras e roteiros são selecionados e lidos em voz alta em sessões de leitura de textos. Também se seleciona e se lê para dar sessões de leitura para as crianças pequenas. Lê-se acompanhando instruções para montar um brinquedo, para fazer um truque de mágica ou para brincar de alguma coisa.
Lê-se para estudar: para se ter uma ideia global do tema ou localizar a resposta para uma pergunta específica ou buscar o parágrafo ou a frase que servem para justificar a própria opinião ou se lê para resumir... É necessário ressaltar que a diversidade de leituras no contexto escolar não pode nem deve ficar sujeita somente às propostas apresentadas pelas crianças, aos materiais que elas trazem, às situações que podem surgir. Tais demandas não atendem, necessariamente, à ampla gama de práticas sociais de leituras: ninguém pode demandar nem propor aquilo que não conhece. Quando se trata de ensinar a ler, é responsabilidade da escola garantir que a maior quantidade possível de situações e textos seja apresentada nas salas de aula para que as crianças tenham todas as oportunidades que necessitam para se transformarem em leitores críticos de nossa cultura. Continuidade também é responsabilidade da escola manter essa diversidade de situações em permanente uso. Não se aprende por partes fragmentadas que vão se acumulando até somar um todo, mas por coordenações cada vez mais extensas e profundas que dão lugar a reorganizações e ressignificações dos saberes em jogo, isto é, por aproximações sucessivas. Então, a apresentação de situações diversas sem continuidade não garante mais que certas aproximações cuja permanência e transformação progressiva não estão garantidas. A continuidade na presença de situações diversas é um princípio complementar da própria diversidade. É o princípio que garante a transformação do saber e evita sua perda por desuso A tradicional distinção escolar entre "ensinar a ler" no primeiro grau e "ler de maneira compreensiva" a partir do segundo, entre a aprendizagem de um mecanismo e o desenvolvimento da leitura propriamente dita, não está de acordo com os princípios de diversidade e de continuidade até aqui expostos. Há várias décadas o discurso da escola sobre a leitura vem sustentado que o fracasso da compreensão na leitura é um "problema concentrado na questão da primeira aprendizagem, pois não se imagina que o ato de ler possa ser outra coisa senão essa técnica que se aprende em alguns meses" nas séries inferiores .
Mas, ao contrário, se sustentamos que toda leitura é compreensão, que as crianças podem fazer interpretações dos textos desde muito pequenas, que as interpretações diversas são válidas e podem ser transformadas..., não há motivo para afirmar que existe uma divisão taxativa entre "ensinar a ler" e "ler". Essa distinção levou a omissões e deformações importantes tanto na alfabetização inicial como no processo posterior. Nas séries inferiores, o conteúdo privilegiado da leitura é a sonorização dos grafemas e suas combinações. O ensino omite todo conteúdo cultural relativo à própria prática da leitura, já que considera que sua abordagem supõe o conhecimento prévio do "código". Quando o texto aparece, é visto como suporte ou desculpa para ensinar o código. Mas, após essa etapa inicial, a deformação não desaparece mas assume outra característica: considera que os alunos já dominam as regras de combinação do "código escrito" e, portanto, "já sabem ler". Assim, "deixa-se de ler para elas (as crianças) porque são elas que devem ler sozinhas, e não só ler, mas entender (de um único jeito) mensagens escritas com vários tipos de complexidade.
Implicitamente, age como se não tivesse que continuar ensinando a ler, isto é, a interpretar as infinitas complexidades dos textos e seus contextos de produção".
Quando as crianças de 3a ou 4a série não interpretam adequadamente o enunciado de um problema matemático ou de um artigo de divulgação científica costuma-se afirmar rapidamente que não sabem ler, como se fosse um "mecanismo chave" que, uma vez adquirido, abriria as portas de qualquer texto e em qualquer circunstância. As perguntas a serem feitas nesses casos são: Qual a complexidade lingüística desse texto nessa circunstância que essas crianças ainda desconhecem? Qual a complexidade conceitual (matemática, temporal, causal...) que apresenta esse texto nessa circunstância e que põe obstáculos para a compreensão? Quais os saberes prévios cuja ausência propicia diferentes
interpretações...
Em suma, as crianças podem saber ler algumas coisas e, nós, professores, temos de continuar ensinando a ler durante toda a escolaridade.

Situações de leitura na alfabetização inicial
Argumentamos até aqui sobre a necessidade de manter a continuidade de situações diversas de leitura para garantir a possibilidade de construção de leitores autônomos e críticos. Agora, cabe e perguntar o que diferencia uma situação  de leitura com leitores iniciais e aqueles que não o são. As situações de leitura na alfabetização inicial "além do propósito próprio de
toda atividade de leitura (...) "obedecem" (...) à necessidade de cumprir um propósito didático bem específico: o de conseguir que as crianças avancem na aquisição do sistema, que possam ler cada vez melhor por si mesmas..."

As crianças
Felizmente, há uma década que em nosso meio já se sabe que as crianças constroem saberes sobre a leitura antes mesmo da leitura convencional. Essas descobertas poderiam ser sintetizadas em:
• As estratégias de leitura. "O significado do texto não é totalmente determinado pelo texto em si porque o leitor coloca em jogo seus saberes em um processo no qual continuamente formula hipóteses sobre o que pode estar escrito, infere o "não escrito", antecipa o que encontrará escrito mais adiante e até pula partes que não necessita processar para compreender o todo. Um leitor, além disso, integra essas estratégias em um processo permanente de autocontrole do que vai compreendendo. Todas essas estratégias próprias de cada tipo de texto vão modelando as estratégias do leitor. (...) Também não se lê da mesma maneira quando se faz com diferentes propósitos".
"É importante destacar que essas pesquisas não foram realizadas só com leitores, no sentido convencional do termo, mas também com crianças bem pequenas. (...) Elas também desenvolvem essas estratégias diante do texto e 'lêem' fazendo interagir aquilo que sabem com as restrições impostas pêlos textos".
• A interpretação do sistema de escrita. Nos esforços por compreender "o que a escrita representa e como representa", sabe-se que crianças bem pequenas podem diferenciar a escrita de outros sistemas de representação gráfica e estabelecem as condições internas para que o que está escrito "diga" (quantidade e variedade de caracteres). Muitas crianças pensam que está escrito o nome da imagem mais importante ou do elemento do contexto que é mais significativo (hipótese do nome).
Outras, além disso, consideram aspectos quantitativos da escrita ("não deve estar dizendo pouca coisa porque tem muitas letras" ou "aqui 'sapo' onde aparece festa" e "aqui 'o conto do sapo' onde aparece A montanha estava em festa"). Algumas, as mais avançadas, consideram não só os aspectos quantitativos da escrita, mas, também, a qualidade das marcas gráficas ("não está escrito 'sapo' porque não tem a mesma de 'sapato' " ou "está escrito 'aranha' porque é igual a de 'António'").
• A linguagem que se escreve. Além disso, as crianças não têm só estratégias e saberes sobre o sistema de escrita desde muito pequenas, mas também constroem saberes sobre "a linguagem que se escreve". "Autores como Ana Teberosky, Liliana Tolchinsky, J. Harste, D. Graves, dentre outros, demonstraram que as crianças, mesmo sem saber ler e escrever de maneira convencional e desde muito cedo, produzem textos linguisticamente diferenciados (por exemplo, narrações e descrições). São capazes de produzir mensagens que possuem marcas de diferenciação entre gêneros e demonstram que a organização sintética dos textos também é diferente"8. Essas diferenciações não só se realizam ao escrever mas quando antecipam o que pode estar escrito. As aulas as situações de leitura na alfabetização inicial requerem possibilitar a coordenação entre esses saberes das crianças e as informações que o texto e a situação oferecem. A intervenção do professor é necessária para propor os problemas que possibilitem esse interjogo.
Uma das dificuldades mais comuns desse tipo de situação é que as crianças, por falta de contexto, acabam decifrando ou inventando em vez de antecipar e confirmar ou desprezar suas antecipações considerando os dados que o texto oferece. Isto é, sonorizam as letras sem conseguir obter nenhum significado ou “dizem qualquer coisa" que não é coerente nem com o texto nem com o contexto. Muitas vezes, essa dificuldade não está em uma dificuldade da criança, mas em um obstáculo introduzido pela situação didática que não oferece de maneira suficiente e adequada os elementos do contexto para que previsões possam ser feitas.
As crianças têm oportunidades de desenvolver antecipações cada vez mais ajustadas e construir estratégias para confirmar ou desprezar essas antecipações quando as situações didáticas possuem os meios para que o texto se torne previsível e possa ser explorado, fazendo a correspondência entre aquilo que se acredita (ou se sabe) que está escrito e a própria escrita. Nas salas de aula, algumas estratégias demonstraram ser coerentes com esses propósitos.
Em princípio, é necessário desenvolver a maior quantidade e qualidade possível de saberes sobre a escrita e sobre a linguagem escrita. Esse saber permitirá que as crianças façam previsões cada vez mais ajustadas. Por exemplo, em uma classe na qual são explorados diferentes materiais para obter informação, um grupo de primeira série está estudando diferentes animais do Litoral para a elaboração de um folheto explicativo. Cada equipe procura informação sobre determinado animal escolhido por todos, a professora discutiu previamente o tema durante vários dias colhendo toda a informação prévia das crianças, também assistiram a vários vídeos que ampliaram seus saberes sobre o tema.
Na aula, a professora distribui uma série de materiais escritos para cada equipe e pede às crianças que marquem onde elas acham que há informação que possa ser útil.
Esse material foi cuidadosamente selecionado: há enciclopédias gerais e de animais (com e sem informação sobre o espécime procurado), contos e poesias com figuras de animais (mas, obviamente, sem informação relevante), revistas atuais (suplementos dominicais) que têm ou não dados sobre o tema e revistas para crianças dos dois tipos e jornais (que somente em um caso tem o material solicitado). As crianças marcam e, em seguida, discutem sobre como fizeram isso. A professora lê em voz alta algumas partes dos materiais marcados pelas crianças, elas confirmam ou não a existência da informação que procuram. Ao mesmo tempo, vão anotando os dados que julgam necessários guardar para o folheto.
Nessas situações, dentre outras coisas, os alunos:
1. podem ampliar seus saberes sobre em qual tipo de texto há informação relevante sobre esse tipo de tema;
2. podem distinguir que em alguns materiais (como os contos) há figuras de animais (muitos assim antecipam), mas pouca ou nenhuma informação;
3. talvez comecem a diferenciar a estrutura sintática dos textos informativos das narrativas de ficção (que certamente conhecem muito mais);
4. podem comparar a forma "organizada e metódica" de apresentar a informação em uma enciclopédia dos comentários bem diferentes que podem ser encontrados em um suplemento dominical;
5. podem também aprender sobre as sessões dos jornais, os índices diversos e a função das ilustrações ou dos subtítulos.
Em todas essas situações, as crianças aprendem a buscar onde ler e de que maneira fazê-lo de acordo com o propósito.
Colocam em jogo suas antecipações sobre os diferentes gêneros e seus portadores e ajustam essas antecipações em função de considerar os índices fornecidos pelo texto. Quando já se conhece muito sobre o gênero que se vai ler,
explorar onde diz, como diz cada coisa...As crianças podem antecipar que no início do conto diz "Era uma vez..." porque escutaram ler vários contos, podem procurar esse trecho de escrita no início do texto, podem comparar como esse início é igual ou parecido em vários livros e, também, como existem outros que não começam com a mesma escrita embora algumas partes permaneçam iguais. Poderiam servir para os mesmos fins as fórmulas de encerramento desses contos clássicos, as construções que se repetem nos contos de estrutura repetida ou os subtítulos "habitat, alimentação, reprodução..." em uma enciclopédia de animais cujas páginas têm, todas, a mesma diagramação e foram muitas vezes lidas pela professora.
Trata-se de propor o problema de "onde diz?" algo que é previsível que diga porque já foi lido muito e já se identificou uma parte (que muitas vezes se repete a partir do oral) para depois procurar essa parte no texto. Isto é, o escrito não é previsível ou não o é em si mesmo, é o professor que o torna previsível por intermédio de situações em que é apresentado. As poesias e as cantigas, quando são memorizadas em contextos nos quais faça sentido memorizá-las (porque de tanto cantá-las se aprende ou porque vão ser recitadas em um ato público ou em uma sessão de poesia para o Dia da Família, por exemplo), podem se tornar textos que as crianças conhecem muito bem e que, ao serem colocados à disposição delas por escrito, permitem esse trabalho de irem identificando onde dizem (ou estão escritas) as partes que vão sendo oralizadas Dessa mesma maneira, como texto a ser explorado mais pontualmente, podem funcionar as agendas de trabalho semanal ditadas para a professora por todo o grupo, escritas em cartazes que ficam à disposição das crianças e consultadas (relidas) para confirmar se a tarefa que se pensa fazer é a que corresponde àquele dia.
Algumas vezes, a previsibilidade de um texto pode surgir pelo contexto verbal imediato fornecido pela professora.
Tratam-se de situações em que o professor informa sobre o "que diz" em vários enunciados do texto e propõe às crianças o problema de identificar em que parte ele aparece. Em uma publicação que já tem vários anos, era descrita uma situação que continua sendo um exemplo típico desse caso. A seguir, transcrevo textualmente o trecho da obra citada:
Um grupo de crianças de cinco anos organiza com a professora uma festa de um aniversário na sala e pede a ela que escreva "Feliz aniversário" no cartaz. Ela atende o pedido das crianças, mas, além disso, acrescenta a esse material outros que dizem "Feliz Natal" e "Feliz viagem". Informa ao grupo sobre o conteúdo dos três cartazes sem identificar a qual pertence cada um, prega-os na lousa e pergunta qual deles é o que ele pediu..
Proposta a atividade, faz-se uma discussão entre os grupos. Opiniões diversas surgem em relação à identificação da escrita "Feliz aniversário".
Andrés: Aqui (mostrando a palavra FELIZ em cada um dos três cartazes) diz "feliz, feliz, feliz..."
Professora: Porque você acha isso?
Andrés: Porque tem todas essas letras (mostrando as letras dos três cartazes), todas essas letras são "igualzinhas".
Juan Manuel: Sim! Ele tem razão: são todas iguais (surpreso).
Professora: Onde diz "Feliz aniversário"? (Burburinho generalizado em toda a sala. As crianças comentam entre si diferentes opiniões).
Patrício: Olha Claudia (para a professora), eu acho que é neste (mostra FELIZ NATAL) que diz "feliz aniversário".
Professora: Por que você acha, Patrício, que aqui diz "feliz aniversário"?
Patrício: Porque esta (mostra o N em NATAL) é o "o"...
Várias crianças: Este é o "o", o redondo (mostram O em ANIVERSÁRIO).
Professora: Algum de vocês tem o nome que comece com esta (mostra o N)?
Maximiliano: Nicolas!
Maria Elena: Natalia!
Gissela: Natalia!!!
Mauro: Do mesmo jeito que começa o da Nancy.
Nicolás: Começa com o ene, professora.
Professora: O que será que diz então?
(Alguns afirmam que diz "Natal" porque começa com a mesma letra de Natalia, outros propõem significados diferentes).
Professora: (Pede que tragam o cartaz no qual está escrito NATALIA e mostra para o grupo)
Evangelina: É igual!!!
Gissela: É mesmo, porque esta é igual a esta e esta é igual a esta (mostrando N e A em NATALIA e NATAL).
Professora: O que diz aqui? (em NATAL).
(A maioria reconhece que no primeiro cartaz está escrito "Feliz Natal" porque começa igual a Natalia, o resto afirma que está escrito "feliz aniversário").
Jorge Luis: Não, aqui (em FELIZ VIAGEM) diz "feliz aniversário".
Patrícia: Não, você não está vendo que não tem o "o"?
Andrés: Aqui, "feliz viagem" (em FELIZ VIAGEM), porque tem um "e". Olhe, via...geee...eeem (mostra o E. A opinião de Andrés é confirmada por quase todas as crianças. Reconhecem que é a mesma de Emanuel - letra E - e que diz "viagem" porque tem essa letra).
Professora: Todos estão de acordo que está escrito "feliz viagem"? (em FELIZ VIAGEM).
Todos: Sim.
Professora: Então, vamos ver se entramos em um acordo em qual desses diz "feliz aniversário", (mostra FELIZ ANIVERSÁRIO e FELIZ NATAL).
Juan: Esta é "feliz aniversário" (mostra o cartaz correspondente), porque tem o "o" (mostra a letra O).
Professora: Eu pergunto... "Feliz Natal" tem "o"?
(Várias crianças repetem em voz alta a frase, realizando diferentes tipos de separação. Finalmente, dizem que não tem "o").
Várias crianças: Não!!!
Maria Elena: "Feliz aniversário" tem. Olhe professora, "fe...liz..ani...ver..sá..río" Sim, tem "o". Aqui diz "feliz aniversário" (no cartaz de FELIZ ANIVERSÁRIO). (A maioria apóia a resposta de Maria Elena. Algumas confrontam a escrita do cartaz FELIZ ANIVERSÁRIO com a frase idêntica escrita em uma faixa, confirmando, assim, a interpretação dada).
Essa observação exemplifica a forma com que as crianças podem antecipar o significado da escrita a partir da coordenação da informação fornecida pelo adulto (sua leitura) e a informação fornecida pêlos índices qualitativos dos textos. A resolução do problema se concretiza mediante as opiniões e discussões das crianças e da intervenção da professora, que indica para favorecer a interpretação".
Nesse tipo de situação, é inevitável para as crianças considerar os aspectos quantitativos da escrita (é mais ou menos longa, tem mais ou menos letras, tem tantas partes) e os aspectos qualitativos (com qual começa, com qual termina, tem a mesma que..., tem algumas que são iguais nas três...), para coordená-los com os enunciados que conhecem que estão escritos (porque a professora informou).
Para que as crianças cheguem a ler por si mesmas necessitam elaborar hipóteses cada vez mais ajustadas sobre aquilo que estão lendo, sobre o que está escrito e como está escrito em diferentes gêneros e portadores. Ao mesmo tempo, necessitam confirmar ou rejeitar tais idéias em função dos índices que o texto e a situação fornecem.
Esses índices se tornam cada vez mais observáveis pela participação em situações nas quais alguém lê para elas ou lhes propõe tentar ler por si mesmas e nas quais a intervenção da professora colabora para que tal processo se desenvolva, para que nossas crianças se sintam poderosas e felizes porque são capazes de ler por si mesmas.
Tradução: Daisy Moraes


terça-feira, 4 de junho de 2013

BRINQUEDOS DE PAPELÃO: VAMOS CONSTRUIR?

O que o aluno poderá aprender com esta aula:

- Aprender que o papelão pode ser um recurso importante para oportunizar o brincar criativo;
- Possibilitar experimentos artísticos utilizando papelão;
- Compartilhar o espaço e as brincadeiras com outras crianças e adultos, ampliando o seu universo cultural e vivencial;
- Aprender a esperar a vez de participar, respeitar e ser respeitado, possibilitar trocas de conhecimentos; e
- Instigar a curiosidade, a memória, a percepção, a fantasia e socialização. 

Duração das atividades
Cinco momentos de aproximadamente 20 minutos cada um.















Conhecimentos prévios trabalhados pelo professor com o aluno
Brincadeira, linguagem, imitação e imaginação. 
Estratégias e recursos da aula
1º momento - Apresentando a história
            Para este primeiro momento, o professor conta a história “O trenzinho do Nicolau”, de Ruth Rocha; Editora Salamandra,2009.  Quando for apresentar a história é interessante que o professor, organize o grupo de crianças em roda, sentadas num tapete, num espaço aconchegante e tranquilo. Após contar a história, o professor deve chamar a atenção para os pontos principais da história e para as figuras do livro, instigando para que as crianças falem sobre suas impressões. O professor pode realizar algumas perguntas, como, qual era o meio de transporte usado por Nicolau para percorrer a cidade? Quais os meios de transportes temos em nossa cidade? Temos trem em nossa cidade? Como cada criança chegou à escola? Vieram caminhando, de ônibus, de carro, de bicicleta?  
capa livro
2º momento – Vamos fazer um volante para brincar de dirigir?
            Professor, propõe às crianças a construção de um brinquedo. Mostre para as crianças pedaços de papelão cortados em forma de tiras, e junte as extremidades do papelão, com fita adesiva, formando um círculo. Mostre o círculo para as crianças e pergunte: o que o objeto parece?  Que brincadeira é possível fazer utilizando este objeto?
            Após estas perguntas, o professor compara o círculo a um volante e convida as crianças para construírem em conjunto com ele mais alguns volantes.
volante
3º momento - A construção do Volante.
            Solicite ajuda das crianças para rasgar jornal em tiras, enrolar e sobrepor o jornal sobre a estrutura de papelão, dando volume e forma arredondada. Fixe o jornal com fita adesiva.
            Na etapa a seguir use a técnica da papietagem para deixar mais forte o objeto. Solicite ajuda das crianças para forrar o objeto, utilizando o jornal rasgado com grude ou cola (a receita do grude pode ser encontrada na aula “Vamos fazer uma caixa registradora e moedas para brincar de supermercado”, postada anteriormente no Portal do Professor, o link desta aula encontra-se no item recursos complementares.
             Distribua o papel rasgado anteriormente e solicite que as crianças passem grude ou cola no papel, sobrepondo as camadas. Depois, coloque para secar.
volante
4º momento - Vamos brincar de caminhão?
            Com o volante pronto, o professor poderá propor pintá-lo com tinta guache ou cola colorida. Nós optamos por deixar o volante com o jornal aparente.
            Professor, selecione várias caixas de papelão e organize uma brincadeira com o volante construído. Lembre-se de escolher caixas que sejam firmes e resistentes.  Em nosso caso, utilizamos as caixas de papelão que servem para transportar as frutas para o lanche das crianças.
            É interessante o professor brincar junto com as crianças e interagir criativamente, trazendo elementos novos e enriquecedores às brincadeiras.
             Em nosso caso, a brincadeira foi planejada e proposta junto ao grupo de crianças de dois anos de idade, da professora Josiana Piccole, no Núcleo de Desenvolvimento Infantil – UFSC. Chamamos de “brincadeira de caminhão”. A professora Josiana brincou com as crianças instigando-as a imaginarem diferentes situações. Primeiro, brincou que as crianças eram as frutas que estavam dentro do caminhão, perguntando-lhes que tipo de fruta elas eram. Depois, as crianças assumiram papel de motoristas e a professora perguntou-lhes qual fruta o caminhão delas estava levando. E as crianças respondiam: “o meu caminhão está levando mamão”; “o meu está levando melancia”. Também estavam lá o caminhão de maçã, o do bolo, entre outros. As crianças entravam e saiam do caminhão, numa divertida brincadeira.
            Professor, você pode usar sua criatividade e transformar os caminhões em diferentes propostas.
CARRINHOSCRIANÇAS BRINCANDO
5º momento – Transformando o caminhão em trem.
            Professor, relembrando a história “O trenzinho do Nicolau”, convide as crianças a brincarem de trem do Nicolau. Solicite ajuda delas para colocar as caixas enfileiradas e as instigue imitando o maquinista, apitando, fazendo o barulho do trem.  Para animar ainda mais a brincadeira, cante a canção “Eu vou andar de trem”, presente no site postado no item recursos complementares.
trem

Avaliação
Para avaliar as crianças o professor deve observar se elas participaram da construção dos volantes e das brincadeiras propostas; se interagiram umas com as outras e com a professora, ou predominou a brincadeira individual? Os recursos utilizados possibilitaram a imitação de diferentes papéis e enriqueceram as brincadeiras? 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

RECEITA JUNINA: PAÇOCA CASEIRA DE GELADEIRA


Ingredientes:

500  g de amendoim torrado sem casca
1 pacote biscoito maisena (200 g)
1 lata leite condensado
½ colher sopa margarina (para untar fôrma)


Modo de preparo:

Torrar o amendoim e tirar a casca.

Reservar um copo de requeijão de amendoim sem casca.

Bater no liquidificador, o amendoim restante, a bolacha de maisena, jogar em uma travessa e misturar o leite condensado, até dar liga.

Untar uma forma e espalhar com a mão úmida a paçoca, levar à geladeira por trinta minutos, cortar no tamanho desejado.


DITADO AO PROFESSOR: UMA SITUAÇÃO PARA PRODUZIR TEXTOS ANTES DE SABER ESCREVER (GRAFAR)

Para aprender a escrever, não basta compreender o sistema de escrita alfabético. Escrever envolve dominar o processo de produção de um texto, o que implica conhecer as diferentes possibilidades da linguagem, dependendo da intenção que se tem de comunicar algo para alguém. Envolve também, dominar algumas práticas comuns aos escritores, tais como: planejar o que vai escrever, escrever interrompendo sua escrita para reler o que já foi produzido até aquele momento, revisar seus escritos para aprimorá-los, consultar outros textos para ampliar suas ideias a respeito do que se quer comunicar, dentre outras.
Caso as atividades propostas aos alunos no início de sua escolaridade fiquem restritas àquelas que favorecem a reflexão sobre o sistema de escrita, transmite-se uma ideia empobrecida do que seja esse processo, como se a única habilidade necessária fosse a correspondência entre sons e letras.
Mas, se desde o início, os alunos forem colocados diante de situações em que tenham que produzir textos complexos, onde considerem propósitos comunicativos variados e se dirijam a leitores reais, torna-se possível, tanto a aprendizagem do que significa escrever, quanto o desenvolvimento de habilidades necessárias para lidar com textos - enfrentando os mesmos problemas próprios de escritores proficientes.
Quando os alunos ainda não dominam o funcionamento do sistema de escrita alfabético, podem produzir textos, contando com o professor escriba, que registrará aquilo que for ditado a ele. Tal produção costuma ser coletiva, ou seja, o grupo de alunos se torna autor do texto, o que significa que todos contribuem para decidir o que será escrito e como será escrito, num processo de discussão e troca de experiências em que cada um tem a oportunidade de aprender com as sugestões dos colegas.
O professor, nesse caso, limita-se a escrever o texto que foi considerado mais adequado pelas crianças, sem reorganizá-lo ou traduzi-lo para suas próprias palavras. Além disso, ele coordena a produção, propondo momentos em que o que já foi escrito seja relido, sugerindo que o texto seja revisado para acrescentar dados que foram esquecidos numa primeira escrita, para esclarecer pontos que ficaram confusos, para rever trechos que apresentem problemas, convidando o grupo a refletir sobre formas que permitam superá-los.


EXPECTATIVAS DE APRENDIZAGEM

Essa situação didática favorece avanços dos alunos relacionados ao seguinte objetivo:
* Produzir textos escritos ainda que não saibam escrever convencionalmente.
A atividade permite desenvolver as seguintes habilidades:
* usar conhecimentos sobre as características estruturais dos diferentes gêneros, ao produzir um texto, ditando-o ao professor;
* antecipar significados de um texto escrito.


CONDIÇÕES DIDÁTICAS PARA AS SITUAÇÕES DE DITADO PARA O PROFESSOR OU PRODUÇÃO ORAL COM DESTINO ESCRITO


É importante que, antes de propor aos alunos que produzam determinados textos, eles já tenham familiaridade, como leitores, desse tipo de texto. Se vão produzir bilhetes ou cartas, é importante garantir momentos em que haja contato com esse tipo de gênero. Além da experiência como leitores, é interessante propor momentos para conversarem sobre a organização/estrutura do texto que será escrito: a forma como é escrito, o tipo de informação, o conteúdo...
Para que seja uma atividade produtiva, é importante que, antes de se dedicarem à situação de produção do texto, os alunos conheçam a situação comunicativa em que ele está inserido, definindo a quem se dirige o texto e qual o objetivo que se tem ao escrevê-lo.
Saber sobre o gênero textual e suas características, sobre o destinatário a quem se dirige e os propósitos que se espera alcançar com a escrita contribui para que os alunos decidam quais informações são pertinentes e como serão expressas.


* FONTE: ORIENTAÇÃO SONDAGEM PRODUÇÃO DE TEXTO (1º - 5º ANO) - D.E CENTRO SUL / EQUIPE EFAI - SEC. EDUC. DO EST. DE SÃO PAULO

domingo, 2 de junho de 2013

DICA LITERÁRIA

lobinho.jpg
O LOBINHO BOM
SHIREEN, Nadia
BRINQUE-BOOK


Rolf é um lobinho bom. Mas será que realmente existem lobinhos bons? Ou no fundo todos os lobos são grandes e maus?

*História inteligente e engraçada, que subverte a lógica tradicional dos contos de fada.
*O lobinho bom recebeu uma menção honrosa no prêmio Bologna Ragazzi, categoria Opera Prima, e foi indicado aos prestigiosos Kate Greenway Medal e Waterstones Children’s Prize.
*Um final engraçado e surpreendente que encantará leitores de todas as idades.
*Ilustrações graciosas e vibrantes que enfatizam o humor da história.


Era uma vez um lobinho bom chamado Rolf, que é gentil com seus amigos, come todas as verduras do prato e adora assar bolos. Mas lobos de verdade não são bons – lobos de verdade são grandes e maus. Será que Rolf vai conseguir encontrar o grande lobo mau que vive dentro dele?

Leitura compartilhada: A partir de 3 anos
Leitura independente: A partir de 6 anos


DESENHAR COM ESFEROGRÁFICA, POR QUE NÃO?

Sempre à mão, a caneta esferográfica tornou-se a grande cúmplice da ilustradora laura teixeira, que compartilha neste artigo a proposta de uma oficina criativa


Comecei a desenhar com caneta esferográfica com uns dois anos de idade. Muitas vezes ia com minha família comer fora aos domingos e os únicos materiais disponíveis eram uma caneta Bic azul ou preta e um bloquinho pequeno, que apareciam na minha frente assim que nos sentávamos para esperar a comida. Fui, portanto, adquirindo muita familiaridade com as canetas. Por isso, resolvi usá-las para fazer os esboços de O jarro da memória, o primeiro livro infantil que ilustrei. O resultado agradou o pessoal da editora, e então decidimos que os desenhos finais teriam como base essa técnica. No entanto, para obter uma impressão mais viva, resolvemos usar cores especiais no livro inteiro (e não as cores primárias, como na grande maioria dos casos).

Para isso, no processo de finalização, os desenhos foram todos feitos com caneta esferográfica preta, e depois coloridos no computador. Algumas partes, porém, foram feitas com lápis grafite. Antes do lançamento de O jarro da memória, ministrei a primeira oficina sobre o tema, Meu Livro de Recordações, na Primavera do Livro, realizada em São Paulo, em 2005. Esta mesma proposta foi repetida algumas vezes, na Livraria da Vila, Livraria Cultura e na Escola Alecrim, todas na cidade São Paulo. As crianças eram convidadas a construir seu próprio caderninho de desenho, utilizando, entre outros materiais, as canetas esferográficas, claro. A seguir, apresento a proposta desta oficina.

avisala_31_sustanca2



Proposta de oficina

Na oficina Meu Livro de Recordações, cada criança produz seu próprio livrinho de recordações, para registrar, sempre que quiser, algo interessante de sua vida. Durante a atividade tomam conhecimento das diversas etapas envolvidas no processo: concepção da capa, encadernação e refile. Inicialmente, é feita uma breve leitura do livro O jarro da memória, e há uma conversa sobre as lembranças das crianças. Cada uma recebe então canetas esferográficas, algumas folhas auto-adesi-vas estampadas (as estampas são as mesmas criadas para o livro), tesoura e uma folha de papel colorplus A4 dobrado ao meio.

A proposta é confeccionar a capa do livrinho, ilustrando uma ou mais recordações. Os miolos dos livros são previamente preparados (8 folhas de papel jornal dobradas ao meio por pessoa). A encadernação (com 2 grampos) e o refile (com estilete) é feito por adultos à medida que as crianças vão terminando as capas.

(Laura Teixeira, é ilustradora e designer)

Quem é a artista

Laura Teixeira é ilustradora e designer. Nasceu em São Paulo em 1976, estudou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e especializou-se em ilustração em Barcelona na EINA – Escola de Design e Arte. É mestranda na FAU-USP, na área de Design. Tem colaborado com diversas revistas, entre elas Pesquisa Fapesp, Foco Economia e Negócios e TAMKids. Em 2005, ilustrou seu primeiro livro infantil, usando canetas esferográficas, O jarro da memória, com texto de Claudio Galperin.

O Jarro da Memória

Num texto delicado e poético, que se integra às ilustrações como um elemento gráfico, o escritor Claudio Galperin busca um fio para unir infância, maturidade e velhice: a memória, que reordena os acontecimentos marcantes da vida e lhes dá sentido. Ainda pequena, a personagem Laurinha inventa um “guardador de lembranças”: um jarro de barro onde as memórias se acumulam na forma de pedrinhas. Assim ela pode recordar os acontecimentos especiais da sua vida, como o nascimento de uma figueira, a morte da avó ou mesmo um ataque de riso sem motivo. Escritor e roteirista de cinema e televisão, em O jarro da memória Galperin retoma o tema da nostalgia, também abordado na novela para adultos O avesso dos dias (Beca, 1999).

Laura Teixeira, por sua vez, estréia na ilustração de livros infantis com um trabalho artesanal, feito com canetas esferográficas comuns, além de tinta branca e grafite. Nas palavras do escritor Rodrigo Lacerda, que assina a quarta capa, “os sentimentos, é claro, não podem ser investigados com os olhos, e nem examinados com a mão. Mas, assim como a menina lhes dá a forma de pedras, Claudio Galperin e Laura Teixeira também botam no papel, com letras e desenhos, esses mistérios que nascem no coração da gente”.


sábado, 1 de junho de 2013

AREIA: AS CRIANÇAS ADORAM, JÁ OS ADULTOS...

Seja na praia ou no parquinho, no quintal ou na beira dos rios, os pequenos se deliciam com a areia. Mas, nos espaços de educação infantil, a vivência com a areia continua pouco incentivada. Veja como ela pode ser incorporada no dia-a-dia das crianças de forma criativa e segura


Dos centros urbanos às comunidades indígenas (como mostram algumas fotos deste artigo), a areia desperta o interesse, a imaginação e a alegria dos pequenos. Muitos são os motivos que os levam a manipulá-la, se divertir e aprender com ela. Para começar, é fácil brincar com a areia: bastam duas mãos ou um pedacinho de pau para criar formas e desenhos. A areia oferece bons desafios, como vencer sua resistência ou obter consistências diversas ao misturá-la com água. Encher baldes, formas, planejar um castelo ou outras construções possibilita às crianças vivenciarem conceitos que só mais tarde poderão ser formalizados. Observar a areia escorrer por tubos e canos, descer numa ampulheta ou fazer caminhos no chão são experiências que podem ser planejadas por um professor preocupado em estimular as crianças a construir conhecimentos.

Oportunidades de aprendizado

Além do mais, brincar com areia proporciona muitas simbologias. Usada como elemento neutro, ela pode fazer o papel de muitas coisas: comidinhas que são misturadas nas panelas com folhas e água; material de construção que caminhões e carrinholas carregam de lá para cá e daqui para lá; sujeira para ser varrida; “pó de pirlimpimpim”; ou o que for necessário para alimentar o faz-de-conta de cada um. Também pode ser simbólica do ponto de vista da linguagem, pois muitas vezes a areia se torna a “companhia” para a criança conversar consigo mesma e estabelecerem diferentes narrativas.
A areia possibilita ainda uma experiência sensória importante. Torna-se mote para interagir com o corpo de outras crianças. Em suas diferentes texturas e temperaturas, também leva a criança a conhecer a si própria e aos limites de seu corpo. Enterrar-se na areia, esconder os pés ou as mãos e poder descobri-los infinitas vezes proporciona uma sensação de controle que auxilia a criança a construir a sua identidade corporal. Até mesmo ao causar incômodo, quando gruda na pele ou no cabelo, permite que a criança viva essa situação e aprenda como lidar com ela. A areia com água também pode virar uma “meleca” que, no caso de crianças que estão aprendendo a usar o banheiro, pode se assemelhar à consistência das fezes, auxiliando-as na elaboração deste processo.

Quebrando resistências

Parece-nos, portanto, que a Educação Infantil pode, e deve, tirar proveito dessas diferentes possibilidades de aprendizagem. Há inúmeras maneiras de planejar o contato das crianças com a areia desde muito cedo, bastando que tenham controle corporal suficiente para manipulá-la e que os devidos cuidados com segurança e higiene sejam garantidos. Para começar, precisamos convidar os profissionais da escola – do diretor às auxiliares de limpeza –, bem como os pais, a rever sua resistência às atividades com areia. Como o conceito de sujo e limpo é relativo em cada cultura, a areia pode ser considerada limpa o suficiente para “arear a panela” e ao mesmo tempo “uma sujeira”, quando retida no cabelo ou no sapato. São freqüentes as solicitações de pais e médicos para que as crianças não brinquem no tanque de areia, principalmente quando apresentam problemas de pele. Muitas mães reclamam da roupa, do calçado, do cabelo úmido ou “sujo”, temendo que os filhos adoeçam. Outras apontam a falta de tempo e de espaço para lavar e secar as peças diariamente. Em conseqüência, muitas escolas eliminam o tanque de areia e as brincadeiras com água para evitar conflitos com as famílias e com os profissionais de saúde.
Ouvir os pais, esclarecer dúvidas e ajudá-los a equacionar os problemas é parte da parceria com a família. É importante que a equipe leve em consideração suas queixas e as necessidades das crianças. Ao mesmo tempo, a escola deve sensibilizar e informar os adultos sobre a importância da atividade com areia e água. Apresentar ao posto de saúde e pais uma circular com os objetivos da proposta e os cuidados efetivos pode ajudar a esclarecer e evitar desentendimentos futuros. Certamente, os pais irão se sentir mais tranqüilos ao observar que a escola toma os devidos cuidados antes, durante e após as atividades com a areia, evitando que as crianças permaneçam com o cabelo, a roupa ou o calçado úmidos ou com areia.

A seguir, alguns pontos que merecem atenção da escola:

Cuidados com as crianças

*As roupas e calçados devem ser adequados ao tipo de brincadeira. Providenciar, com ajuda dos familiares, bonés para proteção do sol.
*Após a atividade, todas as crianças precisam lavar bem as mãos e antebraços e retirar resíduos que eventualmente tenham entrado na roupa ou sapato. O contato prolongado com areia ou água costuma trazer desconforto e irritação da pele. Mesmo os adultos, quando vão à praia e ficam na areia, logo gostam de tomar uma ducha, mudar de roupa e calçado.
*As crianças que cumprem o período integral necessitam de banho ou cuidados de higiene parcial para remoção completa da areia do corpo, calçado e roupa.
*As crianças devem ser orientadas e supervisionadas para que não joguem areia no rosto dos amigos e para não levarem areia com as mãos para os próprios olhos.
*Em caso de acidente com areia no olho, lavar imediatamente com água limpa abundante ou soro fisiológico e encaminhar ao serviço de saúde para avaliação.
*Crianças que apresentem deficiência visual significativa necessitam de orientação do oftalmologista quanto ao risco de acidente resultante de contato com areia – algumas dessas crianças podem ter o reflexo corneano diminuído ou ausente, facilitando a entrada da areia nos olhos, o que pode agravar a lesão pre-existente.
*Caso alguma criança apresente reação alérgica ao contato com areia, é necessário consultar o profissional de saúde para combinar os cuidados específicos. Nos casos em que há contra-indicação total ao contato direto com a areia, deve-se substituir esta brincadeira por outra e explicar o motivo para a criança e seus amigos.

Prevenir contaminações

Além dos cuidados com as crianças durante a brincadeira, é importante prevenir a contaminação da areia. Não é raro que os tanques sejam contaminados por dejetos de animais domésticos, principalmente gatos, que são animais de hábitos noturnos e costumam sair de casa e usar os tanques de areia para enterrar suas fezes. As fezes dos animais podem hospedar parasitas com risco potencial de transmissão de diferentes doenças. Uma delas é a toxoplasmose. Os seres humanos, principalmente crianças, infectam-se ao ingerir acidentalmente ovos do parasita presentes no solo, por meio de mãos contaminadas. Evita-se a toxoplasmose ao não ingerir carne crua ou malpassada, verduras mal lavadas e ao evitar o contato com fezes de gato. Outra doença comum é o conhecido “bicho geográfico”, causado pelas larvas do gênero Ancylostoma spp. Essas larvas penetram na pele e andam por debaixo dela, provocando uma erupção semelhante a um caminho tortuoso.

Vale ressaltar que esse risco de contaminação dos tanques de areia não é maior, entretanto, do que das praças públicas e da própria praia. Em vez de eliminar esta rica atividade simbólica e exploratória da vida das crianças, é preferível tomar alguns cuidados básicos.


Cuidados com a higiene do local

*Colocar telas ao redor do tanque de areia para evitar o acesso de animais. Caso seja impossível esse isolamento, recolher imediatamente fezes de animais e descartar.
*Fazer um exame parasitológico da areia antes de colocá-la em uso e repeti-lo periodicamente, pelo menos de seis em seis meses.
*Na sexta-feira, desinfetar a areia (ver abaixo) e revolvê-la, voltando a revolvê-la na segunda-feira antes de as crianças a usarem.
*Lavar os brinquedos de areia com o mesmo cuidado e freqüência com que se cuida dos brinquedos de sala.
*Construir o tanque de areia com sistema de drenagem que o impeça de ficar úmido e empapado em dias de chuva.
*Deixar o tanque em local ventilado e ensolarado.
*Cobrir o tanque com plástico resistente ou lona, principalmente à noite.
*Não permitir que durante reformas ou pinturas sejam misturados restos de cal, cimento ou outras substâncias químicas na areia, devido ao risco de intoxicação e queimadura.
*Revolver, de tempos em tempos, a areia das partes mais profundas para as mais superficiais, assim como das áreas sombreadas para as ensolaradas.
*Periodicamente, peneirar a areia para retirar pedrinhas, galinhos e pequenos objetos perdidos ou até mesmo “escondidos” pelas próprias crianças.
*Qualquer dúvida sobre esse assunto ou procedimento a ser adotado, contatar o Centro de Controle de Zoonoses da sua cidade.


Buscar alternativas

Se não for possível manter um tanque de areia na área externa da escola, convém buscar uma alternativa para levá-la para o interior da sala. Podem ser usados recipientes de plástico que tenham tampa ou possam ser cobertos com material lavável. Eles podem ser instalados na altura da cintura das crianças para que possam brincar com as mãos sem precisar sentar na areia. O importante é proporcionar atividades com areia que tanto agradam as crianças e enriquecem suas aprendizagens.

(Damaris Gomes Maranhão, doutora em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo-Unifesp e formadora do Instituto Avisa Lá e Cisele Ortiz, psicóloga e coordenadora de Projetos do Instituto Avisa Lá)


Como desinfetar o tanque de areia

É recomendável desinfetar a areia semanalmente. A desinfecção deve ser feita quando a creche estiver sem crianças. Uma sugestão é aproveitar o final das atividades da sexta-feira. A manipulação de produtos clorados exige cuidados com a dispensa dos vasilhames vazios e uso de equipamento de proteção individual pelos trabalhadores envolvidos na tarefa. Vale destacar que a solução clorada não elimina todos os parasitas ou bactérias que eventualmente estejam na areia.

Usar 10 gramas de hipoclorito de sódio (em pó) em 1 litro de água para cada metro quadrado de areia. Se você utilizar água sanitária a 2,5%, preparar uma solução com 15 colheres deste produto + 2,5 litros de vinagre em 5 litros de água para cada metro quadrado.
Aplicar a solução, revolver bem e não usar o tanque por dois dias.
Na segunda-feira, revolver a areia novamente antes de usar.
(Manual Creche Saudável – CECIP/ ASBRAC/ UNICEF, Rio de Janeiro, 1997)


Brincadeiras das crianças A’uwe-Xavante
Comunidade A’uwe-Xavante, no Parque Indígena do Xingu1, no Norte do Mato Grosso. 

Especialmente, mulheres e crianças lá se reúnem para lavar roupas e utensílios, banhar-se, refrescar-se ou simplesmente conversar e brincar. Os meninos ajudam a transportar as bacias e recipientes de água. As meninas, a lavar a louça e as roupas. Enquanto fazem suas tarefas, facilmente se distraem com o canto de um pássaro num galho próximo, com a forma das pedrinhas e folhas caídas na beirada, com as cores do barro ou o barulho da correnteza. Perdem a conta das vezes que enchem e esvaziam, com água e areia, os recipientes que estão lavando. Experimentam soltá-los na água para ver se flutuam ou não. As crianças menores também tentam ajudar e sempre encontram algo para virar e revirar, esforçando-se para que fique limpo.

Quando a terra está úmida, ela pode ser facilmente riscada com uma vareta. A espessura e o comprimento da vareta vão determinar traços diferenciados e obrigar jeitos diversos de manuseio. Tampas de latas são usadas para conseguir novos contornos. Quando a terra está seca, a técnica é outra. As crianças trazem água do rio dentro de garrafas e, dependendo do diâmetro do gargalo ou do esguicho conseguido, o desenho nasce da marca da água escurecendo e umedecendo o chão castanho-claro. Além das formas desenhadas, elas observam a rápida evaporação, que causa diferentes gradações de castanho-escuro, até que tudo fique castanho-claro e seco de novo…

Moldam a terra, criando detalhes. Usam pinhas, pedacinhos de pano, borracha e plástico, tampinhas de garrafa, latinhas, papéis coloridos que coletam pelo chão da aldeia antes de começar a brincadeira
.